segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Prêmios

Prêmio Cesgranrio

Finalistas do segundo semestre
Kiss me Kate: sete indicações
Diretor: Marco André Nunes (Caranguejo Overdrive)
             Charles Moeller (Kiss me Kate)
             Marina Vianna e Diogo Liberano (A Santa Joana dos Matadouros)

Ator: Bruce Gomlevsky (Uma Ilíada)
         Mateus Macena (Caranguejo Overdrive)
         Renato Carrera (Homossexual ou a dificuldade de se expressar)
        
Atriz: Letícia Isnard (Marco Zero)
          Ana Paula Secco (O Pena carioca)

Autor: Pedro Kosovski (Carangeujo Overdrive)
           Diogo Liberano (O Narrador)
           João Cícero (Sexo neutro)

Cenógrafo: Bia Junqueira (A Santa Joana dos Matadouros)
                   Bia Junqueira (Santa)
                   Paulo Moraes e Carla Berri (Inútil a chuva)

Figurinista: Carol Lobato(Kiss me Kate)
                   Antonio Guedes (Homossexual ou a dificuldade de se expressar)
                   Antonio Guedes (O Pena carioca)
                
Ator em musical: José Mayer (Kiss me Kate)
                            Thelmo Fernandes (O beijo no asfalto)

Atriz em musical: Laila Garin ( O beijo no asfalto)
                             Alessandra Verney (Kiss me Kate)

Direção musical: Marcelo Alonso Neves (Amargo fruto)
                            Marcelo Castro (Kiss me Kate)
                            Nando Duarte (Sambra)
                         
Categoria especial: Claudio Lins pela adaptação de Nelson Rodrigues  para      
                               musical (O beijo no asafalto)
                               Beatriz Radunsky pela curadoria do Espaço Sesc                     
                               Claudio Botelho pela versão brasileira de Kiss me Kate

Espetáculo: A Santa Joana dos Matadouros
                    Caranguejo Overdrive
                    Kiss me Kate  

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Temporada 2015

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (9/12/2015)

Crítica/ “A santa Joana dos matadouros
Brecht veste camiseta do distanciamento

Joana, militante de grupo de ajuda, professa a fé como forma de exercer a bondade e intervir na disputa entre patrão e empregados na indústria de carne na Chicago, em plena crise de 1929. Ao tentar aliviar a miséria dos trabalhadores, decorrente do desemprego, esbarra em Mauler, poderoso dono dos matadouros que produz carne enlatada. A jovem inocente, numa reprodução da Donzela de Orleans, é submetida pelo voraz capitalista a reconhecer que os pobres são maus e usada pela organização religiosa a que  pertence para desvair a atenção da fome e da falta de trabalho. A falha da greve, como pressão para reabertura da fábrica de Mauler, fechada pelas negociações com a concorrência, leva Joana a morte, consciente de que o mundo não se modifica sem violência. Ao consolidar suas teses, políticas e estéticas, neste texto repleto de referências, históricas e literárias, Bertolt Brecht destaca a luta de classes como forma do homem explorar o homem. E demonstra que está condenado a destruir-se ao tentar superar as condições do jogo em que alguns estão no alto, e muitos por baixo. À complexidade desta narrativa, estilhaçada em cenas múltiplas de um contexto político e social delimitado, se acrescenta a expectativa de que a plateia responda, reflexivamente, ao distanciamento da ação. A montagem de Marina Vianna e Diego Liberano atende às técnicas fabulares brechtianas, matizando o discurso político em surpreendente discurso visual. A dupla de diretores transpõe a eclosão dos quadros para a didática unitária das falas, que de modo direto e sem oscilações dramáticas, alcança a variedade de vozes no seu determinismo quase niilista. A direção de arte de Bia Junqueira assume tal complementariedade na encenação, que a sua assinatura se expande muito além da cenografia. O uso de centenas de camisetas que, desde o início, quando forram o palco, até aderir aos corpos dos atores como uma malha que troca as peles e exibe as nervuras da carne, adquire força simbólica que dinamiza os planos narrativos. Ao lado da iluminação de Paulo Cesar Medeiros, que focaliza indiretamente a  plateia, como a sugerir adesão participativa, o cenário de Bia Junqueira conclui com engradados, quadrilátero de luz e moventes ganchos sanguíneos o impactante visual. Essa ambientação arrebatada se mostra como fratura em decomposição, que o elenco, com a irregularidade de um conjunto heterogêneo, acaba por harmonizar na coletivização interpretativa. Adassa Martins procura o olhar do espectador para a sua intervenção inicial. Leonardo Netto projeta o cinismo dos negócios. Vilma Mello alcança o tom no grito desesperado da viúva. Luiza Arraes, uma Joana inexperiente, dá o recado no final. Sávio Moll, Gunnar Borges, Leandro Santana e João Velho contribuem com pesos variáveis no balanço das  atuações.                     

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Prêmios

Indicados do segundo semestre do Prêmio Shell 2015
Caranguejo overdrive: quatro indicações
Autor: Diego Liberano (O narrador)
           Pedro Kosovski (Caranguejo overdrive)
           Bia Zalcman e Simone Kalil (Brimas)

Diretor: Marco André Nunes (Caranguejo Overdrive)
             Renato Carrera (Abajur lilás)

Atriz: Carolina Virguez (Caranguejo Overdrive)
          Alessandra Verney (Kiss me Kate)

Ator: Gustavo Falcão (Race)
         Mateus Macena (Caranguejo Overdrive)

Cenógrafo: Paulo de Moraes e Carla Berri (Inútil chuva)
                   Fernando Mello da Costa (O Pena carioca)

Figurinista: Carol Lobato (Kiss me Kate)
                   Antônio Guedes (Homossexual ou a dificuldade de se expressar)

Iluminador: Maneco Quinderé (Inútil a chuva)
                   Paulo César Medeiros (A Santa Joana dos matadouros)

Música: Marcos Alonso Neves (direção musical de Amargo fruto)
              Tato Taborda (Blefes excêncritos)

Inovação:  Luiz Felipe Reis – Pela multiplicidade de linguagens na                                                                                        abordagem cênica sobre a ação do homem nas          transformações climáticas (Estamos indo embora)    

                 Claudio Lins – Pela iniciativa de criar uma dramaturgia musical em        
                                        diálogo com obra de Nelson Rodrigues no      
                                        espetáculo O beijo no asfalto





           

domingo, 6 de dezembro de 2015

Temporada 2015

Marília Pêra
Atriz única de uma linhagem artística

Marília Pêra, no show teatral “Elas por elas”, interpretava cantoras brasileiras em homenagem a sua linhagem artística. A dinastia familiar se revelava quando encarnava Aracy Cortes e podia-se imaginar a avó Antônia Marzullo representando nos mesmos pavilhões onde a cantora se apresentava. Ao lançar sua voz em “Camisa amarela”, relembrava Aracy de Almeida e tinha-se a imagem do pai e do tio, Manoel e Abel Pêra, que mambembavam pelo interior. E recordava a mãe Dinorah, que atuava nos tempos do rádio. Marília recompunha com “star quality” de uma trabalhadora braçal do teatro, a herança que cultivou ao longo de 68 anos de carreira. A vida dura da família definiu, não apenas o caráter profissional e rigoroso na formação da atriz, como traçou sua trajetória como operária dedicada ao aperfeiçoamento da prática artística, nunca descontinuado. Voltada ao trabalho como necessidade expressiva, mantinha o impulso de sobrevivência numa ofício difícil, criando condições de se manter atuante e  revigorada. Se os convites rareavam, produzia (“A vida escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato”). Se a proposta era ousada, aceitava (“Onde canta o sabiá”). Se os amigos convidavam, dirigia (“O mistério de Irma Vap”). O teatro devolveu-lhe, com generosidade, o tanto que ela o cultivou em mais de cinco dezenas de espetáculos. Marcada pelas várias comédias musicais, ultrapassou a rotulação do gênero para viver mulheres de temperamento que se tornaram imãs para a atriz que as recriava  com emoção e crítica, às vezes irônica, que emprestava a cada uma delas. Iluminou a brejeirice de Carmem Miranda. Vestiu a elegância de Madame Chanel e deu uma aula a prima dona Maria Callas. Marília Pêra, nunca esqueceu os códigos dos artistas populares, legados do clã de origem e repetidos como ”golpes de teatro” que permitia que flanasse com intimidade e virtuosismo pelo território em que nasceu predestinada e cresceu batalhadora.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Temporada 2015

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (5/12/2015)

Crítica/ “Marco Zero”
A queda do relacionamento de casal

Neil Labute aparece, pelo menos uma vez a cada temporada, como aquele autor de produção prolífera, alinhado com temáticas atualizadas de narrativas convencionais. Na primeira fase da carreira, recorria menos aos truques e golpes de teatro da maioria de seus textos, que capturam algum assunto circulante para usá-lo em escrita rotineira e convenções banalizadas do realismo psicológico. Em “Marco Zero”, a destruição das Torres Gêmeas no 11 de setembro, é o mote da vez. Um casal, aparentemente acuado em um apartamento nova-iorquino, um dia depois do ataque, tenta dimensionar no plano individual a perplexidade e o caos coletivo. O que parecia a princípio tensão diante do desconhecido, logo se vai mostrar apenas como pretexto para “discutir a relação”. Um homem se abriga no apartamento da chefe-amante, sem atender aos insistentes telefonemas da mulher, indeciso em abandonar ou não a família. Segue-se um longo e previsível diálogo sobre a decisão a ser tomada, que ora pende para um lado, ora para outro. O caráter simbólico da data e a metáfora possível de uma América ferida estão distantes do tratamento dramático, reduzido a elemento deflagrador da ação. O diretor Ivan Sugahara investiu na ampliação deste contexto factual, buscando ambientar, com interveniente sonoridade, o barulho que chega do exterior até a luta interior do casal. As informações trazidas pela televisão, que quase nunca se desliga, o telefone, que toca incessantemente, os ruídos e a trilha sonora, que comentam a reclusão, criam inquietude constante que adensa e sublinha a narrativa. Sugahara distribui e equaliza essas rubricas sonoras como referenciais que remetem ao ponto de partida abandonado pelo autor. A cenografia de Aurora dos Campos atende com eficácia a necessidade de boa visibilidade da plateia frente ao difícil espaço angular do palco. A transparência do tecido que demarca a área da representação envolve de olhar nublado o cenário da sala-bolha. Paulo Cesar Medeiros comprova, mais um vez, as suas qualidades de iluminador. Numa dramaturgia elaborada para medir técnicas interpretativas e afinar emoções, a dupla de atores do casal de Labute, estabelece intensa contracena. Tárik Puggina mantém ar misterioso nos silêncios que escondem hesitações e fraquezas. As reações mais contundentes do personagem, reproduzem, com comedimento, as fragilidades que a imobilidade física e voz calada que se articulam na atuação de Puggina. Letícia Isnard, que de início procura sinais para desenhar a mulher que traz da rua convulsionada as marcas do desregramento, se desprende desta linha para ganhar fôlego e vigor. A atriz libera, com modulada intensidade, os sentimentos da mulher em estado permanente de eclosão.          

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Temporada 2015

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (2/12/2015)

Crítica/ “Godspell”
Musical dos anos 70 mostra viço juvenil
O musical do início dos anos 1970 que trata com espírito hippie-circense o evangelho segundo São Matheus prova, tanto tempo depois de sua estreia, que suas canções ritmadas e letras de evocação bíblica se mantêm atraentes. As diversas parábolas que transmitem os ensinamentos de um Cristo convivendo com jovens palhaços-malabaristas de circo bíblico com conotação de paz e amor, revivem uma fase de musicais lastreados pelo desbravador “Hair”. Quatro décadas depois, “Godspell” ganha selo de registro de época e validade na trilha sonora e ainda resiste a novas encenações. A montagem de João Fonseca é a comprovação de que a dramaturgia de Stephen Schwartz e a música de John Michael Tabelak sobreviveram ao tempo, e que respondem com vitalidade a versão renovada e bem cuidada. E essa lufada rejuvenescedora é apresentada com recursos básicos de produção, com elenco ardoroso na sua juventude profissional e inventivo nos jogos cênicos. Os elementos cênicos são pouco mais do cubos de madeira que a movimentação constante do elenco transforma em objetos manipuláveis no compasso das brincadeiras exemplares. Os malabaristas se transformam em grupo de garotos animados pela palavra do mestre, a quem cultuam com o descompromisso e o viço da idade. Na versão de João Fonseca e Rainer Tenente, a integridade original está mantida, mas a agilidade com que alarga os limites do picadeiro para a amplitude da efusão dos apóstolos juvenis, deixa em plano secundário os efeitos corporais do circo exibicionista. Com gírias próprias e críticas oportunas, a adaptação chega a plateia com franca comunicabilidade, sem perder a coesão narrativa. A coreografia de Victor Maia acompanha a marcação precisa das cenas, sempre em ação contínua que não deixa espaços vazios. O quinteto de músicos – Alexandre Queiroz (teclado e regência), Gabriela Alkmin (teclado), Pedro Mota (guitarra e violão), Alana Alberg (baixo) e André Guerra (bateria) – dá bem mais do que conta do recado. É um conjunto que se destaca na qualificada sonoridade do espetáculo. O figurino de Caio Loki equilibra a inspiração riponga com roupas atuais. O elenco de 22 atores atua como um coro harmonizado pela garra de desempenhar o papel de acólitos de uma celebração festiva. Com vozes trabalhadas e vigor corporal têm oportunidades semelhantes de solos, ainda que a melhor participação de cada um, está na capacidade de atuar sob a base sólida do coletivo. Por força do incontornável protagonista como Jesus, Léo Bahia lidera com seu aspecto bonachão o afinado coral. “Godspell” serve também a outra parábola da produção de musicais. Com visíveis restrições de orçamento, longe do falso brilho de cenários e figurino, no rigor de elenco empenhado e no visível cuidado na técnica vocal e interpretativa, esta montagem demonstra que há formas mais simples e criteriosas de encenar musicais.