sábado, 6 de outubro de 2018

Temporada 2018


Crítica/ “Memórias do esquecimento
 
Luz sobre os subterrâneos das lembranças
Outro monólogo. Desta vez, a versão cênica do depoimento de Flávio Tavares, torturado pela ditadura militar brasileira, ato revivido em prisão do regime similar uruguaio, no finai da década de 1960 até a de 1970. O jornalista gaúcho, militante na luta política, banido da sua cidadania, alma roubada da sua utopia, sobrevivente, física e emocionalmente, das investidas contra a sua integridade e das ameaças à sua dignidade, desafia pela escrita, reviver aquilo que lhe parecia incontável. Mais do que denunciam, as descrições da violência e das arbitrariedades de um regime autoritário, as palavras de Flávio alcançam um homem acuado, sem defesas para tentar, sequer, sobreviver. O aniquilamento pretendido pelos algozes, atinge a força vital de quem considera múltiplas as mortes experimentadas nos subterrâneos da repressão e nas catacumbas de si mesmo. O diretor, ator e adaptador (ao lado de Daniela Pereira de Carvalho) Bruce Gomlevsky tratou o material escrito através do formato descritivo de origem. Relato de uma vivência dolorosa, a transcrição cênica segue com fidelidade narrativa o tom expositivo da resenha emocional do preso político. Com o palco do Poeirinha desenhado como uma caixa preta, a presença física do ator é quase estática, com a voz assumindo projeção impositiva, mas mantendo-se em ritmo constante, de poucas relevâncias e em estado de pulsação. Em movimentos curtos e deslocamentos raros, o intérprete é destacado por iluminação de cuidada intervenção de Russinho. O extenso relato, que a fixidez corporal e o diapasão da voz tornam equalizados, sofre quebras dramáticas que na leitura não ocorrem, mas na cena se deixam ver pelas dificuldades que o monodrama impõe. Bruce Gomvlesky enfrenta o desafio de se apropriar, com a precaução do comedimento, das palavras candentes de uma vida sitiada. Vence a batalha em monólogo que foge de intermediações, em busca do frente a frente de um discurso direto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Temporada 2018


Crítica/  “Diários do abismo"
Um monólogo diante de seus desafios
Já há algum tempo, e por variadas justificativas, os monólogos ocupam a cena carioca em progressão numérica e conceituações múltiplas. Questões de produção são alegadas, prioritariamente, como o motivo mais relevante. É um deles, mas, algumas vezes, esconde mais do que denuncia. Escolhas temáticas, que se baseiam em obras literárias, agendas sócio-políticas, narrativas clássicas e até depoimentos pessoais, quase sempre camuflam as dificuldades de adaptação à individualização cênica. As possibilidades de encontrar a dramaturgia, no texto e na cena, e traduzi-la como expressão real teatral, esbarram nas limitações do discurso monodramático, e no empréstimo, comumente postiço, da obra transcrita. “Diários do abismo”, em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, se enquadra na maioria dessas premissas. Baseado no livro-depoimento de Maura Lopes Cançado, “Hospício é Deus”, escrito nos anos 1960, a partir de uma de suas internações em hospital psiquiátrico. A adaptação de Pedro Brício seleciona algumas datas do diário que revelam muito mais as condições prisionais dos tratamentos do que a “lógica existencial” dos delírios do inconsciente. O livro inspirador se fixa na biografia de alguém que descreve a si mesma como impossibilidade de convívio com o mundo. Biográfica, desde as reminiscências de infância às tentativas frustradas de casamento, profissionais e  de convivência, a narrativa é balanceada por frases que buscam a sinceridade do literário como expressão construída do desajuste. Esse material foi trabalhado pelo diretor Sergio Módena para modula-lo para além da forma expositiva da atuação. Para tanto, se cercou do dispositivo cenográfico de André Cortez e da iluminação de Paulo Cesar Medeiros para impor mobilidade à atuação frontal. Colções de espuma que figuram pessoas, projeções que reafirmam as palavras, luzes expandidas e sonoridade eventual dão movimentos ao imobilismo da fala direta. Sem acentuar passagens, o diretor amplia, com sutileza, alguns momentos, evitando um possível e ameaçador dramatismo. Se no passado, os monólogos serviam para um certo exibicionismo, ora confortável, ora virtuosístico, agora as razões da interpretação do gênero precisam emergir da própria dramaturgia. Maria Padilha empresta, com alguma sensibilidade e leveza, o testemunho de uma história em estado de desequilíbrio. A atriz cumpre o papel, mas não o confronta com os abismos que propõe.          

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Temporada 2018


Crítica/ “Nerium Park"
Recolha dos detritos de uma relação
O texto do espanhol Josep Maria Miró aponta para várias e dispersas direções até desvendar sua verdadeira natureza. Mesmo autor de “O princípio de Arquimedes”, encenado na temporada 2017, Miró reproduz em “Nerium Park” no palco do Teatro Glaucio Gill, a atmosfera de ameaça e estranheza que apoiava a história de culpabilização coletiva de um professor de natação infantil. O Park em que o autor situa a narrativa é um condomínio de classe média, ocupado por casal no único apartamento habitado. Com projetos de futuro, demonstrando fraturas no relacionamento e cercado pelo vazio do entorno, a dupla é assaltada por desemprego, ameaças intuídas e esfacelamento de sentimentos.  A ambientação funciona como projeção de modelo social em estado agônico e reflete o condicionamento do autor a construir situações singulares, mas não consegue encobrir o real drama psicológico de casal que sustenta a ação. Há qualidades nos diálogos e cortes de tempo bem sequenciados, ainda que a envolvência misteriosa de personagem oculto e vagamente ameaçador não estabeleça embate dramático consistente. A contracena com o que fica subjacente não se integra ao cenário emocional de quem apenas vive o desgaste da relação. Longos e vivendo de espasmos, os quadros sobrevivem mal à monotonia que provocam pelas reiterações circulares da trama. O diretor Rodrigo Portella procurou fugir daquilo que era inescapável: o realismo psicológico. Conseguiu, ao menos em parte. A cenografia despojada, branca e vazia de elementos, é preenchida por vasos de plantas, detritos e terra que se acumulam e soterram o esfacelamento do convívio. Um tanto óbvia e já bastante explorada, a “solução” disfarça, com algum maneirismo, aquilo que o texto, efetivamente, é. O elenco – Pri Helena e Rafael Baronesi – duela com armas pouco afiadas. O desenho corporal, que a princípio insinua combatividade, se perde em exibicionismo físico e figuração teatralizada. Rafael Baronesi adota um ar de distanciamento, que canaliza para excessiva exposição do corpo. Pri Helena busca os escaninhos da hesitante personagem. Encontra alguns, mas os abandona no incontido arrebatamento da última cena.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Temporada 2018


Crítica/ “Molière”
Molière de muitas caras
O universo é o da biografia e do teatro, e a invenção, de fatos e de gêneros de representação. O texto da mexicana Sabina Berman reúne o comediógrafo  Molière e o trágico Racine vivendo o dualismo da contracena na corte de Luiz XIV. Para além das disputas, arbitradas pelo poder real e a censura exercida pelo poder eclesiástico, o absolutismo das leis e a hipocrisia dos comportamentos determinam o envolvimento e a dependência das benesses dos patrocínios. É nessa ambiente em que opostos duelam e atitudes se manifestam como ditaduras, que Berman situa os personagens referenciados e revisa histografias. A construção narrativa permite diversas linhas de encenação pelas diferenças estilísticas propostas pela autora. Opor para estabelecer o desequilíbrio das forças dramáticas parece ter sido a característica dominante da direção de Diego Fortes. A montagem paulista, em cena no Teatro Adolpho Bloch, é desabrida na exposição do entrecho, confundindo crítica com gozação e impondo, artificialmente, trilha musical com canções de Caetano Veloso. A encenação soa retumbante, um tanto fora do seu eixo central, ao sobrepor elementos que se atropelam, e em alguns momentos se negam. Mesmo a dissonância na intensidade e saturação nos meios, “Molère” deixa evidente as suas opções, e em conjunto acaba por revelar-se comunicativa. A cenografia de André Cortez e Carol Bucek e o figurino de Karlla Girotto reproduz no visual a sobrecarga que sustenta o espetáculo, mas com algumas boas sacadas na caracterização. O conjunto musical desempenha o seu papel de tornar ruidosa a sua participação. No elenco de 15 atores, em que Matheus Nachtergaele (Molière) e Elcio Nogueira Seixas (Racine) demonstram confortável assimilação ao espírito da montagem, os demais atores se integram, em pequenas intervenções, com atuações melhor sintonizadas ao estilo do humor predominante. Renato Borghi imprime autoridade farsesca ao arcebispo Péréfixe, Nilton Bicudo é um divertido rei Luiz XIV e Rafael Camargo  tem ótima composição como La Fontaine. Georgette Fadel (irmão de Racine) demonstra, com surpreendente maleabilidade corporal e voz clownesca, além de marcar presença na banda como trompetista, a certeza de que não existem papéis secundários.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Temporada 2018


Crítica/ “Heisenberg – A teoria da incerteza”
Metáforas para drama psicológico

A teoria da incerteza, que acompanha o Heisenberg do título, revela menos sobre a física quântica  na qual se inspira, e se mostra mais intrigante pelo sobrenome de seu criador, que o inglês Simon Stephens adotou para o texto que assina, que o diretor Guilherme Piva dirigiu e está em cena no Teatro Poeira. Por quaisquer das aproximações que o autor tenha pretendido com questões suscitadas pela física, é bastante discutível que tenha sequer se avizinhado do proposto. A imprevisibilidade das reações quando substâncias se encontram, como analisa a ciência, não a torna autônoma na transferência à representação dramatúrgica. A mulher que aborda um velho homem solitário  numa estação de trem, desdobra esse primeiro contato em outros em que o mistério das vidas e motivações de cada um estão inversamente proporcionais ao desvendamento parcial do passado e dos desejos do momento. Secretos nos sentimentos, improváveis no afeto, vulgares nas histórias, ela, ex-garçonete, recepcionista de escola, ele, açougueiro, são feitos dessa matéria que junta sem fundir. Soltos, desgarrados, dispersos, os personagens estabelecem um jogo de dissimulações que se apoia num drama psicológico de viés tradicional. A estranheza nos comportamentos e a metáfora nas atitudes desequilibram a narrativa que, de base realista, mantém o caráter evolutivo e trama que se “resolve” no final. A direção acentua esse descompasso com projeções inúteis que se imagina ajudariam a situar a ação no tempo. Dispensáveis como apoio para o que parece obscuro, as projeções excessivas contrastam com o franciscano cenário e a  fragilidade da tensão na contracena do elenco. Guilherme Piva demonstra dificuldade em sustentar, com meios tão enxutos, linha interpretativa que conduza ao desfecho que, aparentemente, deveria atingir a contundência. De tão débil, encerra a montagem com indiferença. Everaldo Pontes estende ao físico o desenho da atuação. Barbara Paz empresta intensidade impostada ao seu natural registro de atriz.