segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Livro


Kalma Murtinho - Figurinos
Atriz no Tablado: O Macaco da Vizinha (1956)
O livro Kalma Murtinho – Figurinos, edição Funarte, cumpre o que a simplicidade do título promete. Organizado por Rita Murtinho, filha de Kalma, e pelo ator Carlos Gregório, com textos afetivos de Fernanda Montenegro e Barbara Heliodora, reúne em 240 páginas da bem cuidada edição a produção de 60 anos de profícua e qualificada atividade teatral. São fotos e croquis dos espetáculos em que participou como figurinista, sua atividade mais constante e definitiva (também foi atriz no início da carreira, no Tablado e na sua dissidência, o Teatro da Praça), que registram o desenvolvimento de um trabalho marcado pelo rigor de execução e requinte na criação. Como assinala Fernanda, “devo a Kalma Murtinho encontros cênicos inesquecíveis. Figurinos que traziam apoios conclusivos para aquela interpretação. Uma luz no fim do túnel. Um acerto, uma intuição própria, cuja origem vem de sua vivência, sensibilidade, discrição ou explosão, na medida corajosamente certa.” 
Maroquinhas Fru Fru (1961)
Com formação empírica, como toda uma geração que viveu os primeiros anos do Tablado, Kalma desenvolveu ao longo carreira, só interrompida pela morte no ano passado aos 93 anos (seus dois últimos trabalhos foram Os Datilógrafos e o infantil O Pirata Barba Ruiva, ambos em 2012), um depuramento artesanal que pode ser constatado em figurinos múltiplos. Do clássico Pluft, O Fantasminha (1955) à exuberante Tia Mame (1959); do requinte de Com a Pulga Atrás da Orelha (1960) à elegância de O Amante de Madame Vidal (1973); dos contrastes de Orlando (1989) ao delirante Gloriosa (2008) e aos adereços operísticos de O Trovador (2010). Como analisa Barbara Heliodora: “Kalma foi responsável pelos trajes usados em 219 espetáculos, o que, segundo um cálculo modesto, deve corresponder a pelo menos uns 600 ou 700 figurinos, usados por personagens de 10 ou mais países em épocas que variam da Grécia antiga aos dias de hoje. Não há dúvida de que Kalma Murtinho seja, por seu gosto, competência profissional e ética, uma das mais completas e consagradas personalidades do teatro brasileiro."  

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Temporada 2014

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (1/10/2014)

Crítica/ Na República da Felicidade
Memória dramática em torno da reunião familiar

Como nos textos anteriores do inglês Martin Crimp, vistos nas últimas temporadas e dirigidos pelo mesmo Felipe Vidal  deste Na República da Felicidade, busca-se construir narrativa cênica, sem que haja propriamente trama, mas um fluxo de situações que cria zona ficcional em que os meios (realismo, música, farsa, humor) são elementos especulativos que exploram a memória dramática. Numa reunião familiar em que se reconhecem conflitos domésticos e se estabelecem ações interrompidas e sentimentos vagos é criado um ambiente com entrecho que insinua desenvolvimento e personagens identificáveis. Esse enquadramento inicial, provável referência à dramaturgia de Harold Pinter, é desfeito com a sequência dos quadros “As cinco liberdades essenciais do indivíduo”, concluída com a cena que leva o título da montagem. Aparentemente, não há linearidade entre o início e a compulsão de vozes que se seguem, como se o encontro familiar do princípio fosse uma provocação expositiva e a sequência, um jogo de desmonte que deixa entrever movimentos de desarrumação e de trânsito entre formas teatrais camufladas e a atordoada percepção do espectador. Difícil e envolvente, excessiva e rigorosa, a dramaturgia de Martin Crimp se propõe à plateia com desconcertantes contrastes e atraentes truques num diálogo especulativo de tensões. O diretor Felipe Vidal, ainda que demonstre identidade com o texto, faz uma incisão pouco exploratória no universo do autor. As várias camadas tensionadas da narrativa recebem tratamento de rubricas, sem as contradições formais de estilo (canções encerram e comentam as cenas) e quebra do método indutivo do drama (o código do gênero é pouco revisado). Para além do mergulho de superfície e profundidade em que oscila o tempo dramático, paira a costura de um exercício de estilo, permeando cada uma das singularidades expressivas. A primeira cena, introdutória e desafiante, tem caráter realista e como tal é aceita como reprodução e espelho de ações passíveis de serem reconhecidas. As demais, circulam por tantos e tão variados registros de representação, que o desafio está em manipular suas características, deixando à mostra como foram processadas. Vidal não promove essa diversificação de meios, uniformizando numa mesma escala e compasso as disfunções estilísticas. O elenco corresponde à proposta de interpretar a multiplicidade de registros, mas seja por orientação do diretor, seja por eventuais incompreensões, nem sempre alcança unidade no conjunto. Se Branca Messina revela autoridade como a mulher de 30, Luciana Fróes se destaca pela composição corporal como a mãe. Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainá Nogueira procuram seu lugar no jogo dos despistes. O elenco masculino - Felipe Vidal, Gabriel Salabert, Sergio Medeiros e Luciano Moireira – enfrenta com menor resultado as tentativas de atuações desconstruídas.                                                                    

domingo, 28 de setembro de 2014

Temporada 2014

Crítica publicada no Segundo Caderno de O Globo (28/9/2014)

Crítica/ Crônicas de Nuestra America
Mecanismos fantásticos da realidade sul-americana

Com forte sotaque sul-americano, ilhadas em geografia do exílio e ambientadas no realismo algo fantástico do literário continental, as crônicas de Augusto Boal, escritas na década de 70, refletem a época e as circunstâncias políticas então vigentes em parte dos países da região. São quase casos, recolhidos pelo autor, para compor um painel de humor de farsa que se aproxima do picaresco. Em situações que refletem variadas formas de opressão (social, política, pessoal), traçam-se em linhas algo absurdas as desigualdades e arbitrariedades da convivência em regimes autoritários do período. A crônica, por seu caráter de registro de um certo cotidiano parece pouco maleável a propósitos mais ambiciosos como os imaginados por Boal. Ainda que o humor suavize a rigidez do tom crítico e amenize a forma como aponta para os descaminhos continentais, prevalecem os mecanismos simplificados de exposição analítica. A adaptação teatral de Theotonio de Paiva tenta criar narrativa cênica a partir do material de crônica folhetinesca, elegendo um texto como eixo, introduzindo os demais como derivações. Não é muito bem sucedido nesta colagem por tornar confuso o desenvolvimento narrativo, com avanços e recuos emperrando a fluência e limitando o seu alcance. O diretor Gustavo Guenzburger acentua os problemas da adaptação ao imprimir excessivo nervosismo à montagem, procurando uma intensidade de corrida que despreza o equilíbrio do ritmo e dispersa a atenção pela quebra sucessiva da sequência de imagens. O cenário de Dani Vidal e Ney Madeira, que também assinam em dupla o figurino, contribui pela necessidade de ser armado e desmontado pelo elenco, como mais um elemento que, ao contrário de impulsionar a ação, retém a sua fluidez. Os atores – Adriana Schneider, Carmen Luz, Clara de Andrade, Henrique Manoel Pinho, Larissa Siqueira e Lucas Oradovschi – alinhados como um conjunto de saltimbancos histriônicos se multiplicam em intervenções sempre expansivas, mas pouco moduladas.  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Temporada 2014

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (24/9/2014)

Crítica/ A Estufa
Jogo de realidade e ficção em thriller político

A narrativa deste thriller-político de Harold Pinter oferece várias encruzilhadas no desenvolvimento da ação que podem levar o espectador a escolher tantos caminhos quanto a trama insinua. O diretor de uma instituição, cujos internos são designados ora por números, ora como pacientes, mantém o poder de maneira utilitária, fraudando a burocracia e se servindo de auxiliares e detentos na sua ambição de administrador. A gravidez de uma das internas e o assassinato, sob tortura, de outro deles completam o clima de mistério e estranhamento causados por presenças enigmáticas que se movimentam dentro de engrenagem social difusamente repressiva. Quem é efetivamente o diretor? Quais as razões de suas atitudes? O que explica o comportamento de quem o cerca? Nenhuma das perguntas encontra resposta conclusiva, apenas indícios que são a razão mesma de como o autor constrói seu universo dramático. As entrelinhas, as motivações subjacentes, as pausas entre intenções obscuras envolvem personagens que não se explicam ou enganam por suas atitudes contraditórias. É desse jogo de realidade e ficção, em que o  humor se contrapõe ao policial e o político ao individual que Pinter fornece pistas, sem indicar um único sentido que provoque reações convergentes para decifrar vagas referências. O diretor Ary Coslov circula por esta “nuvem” de dados sem localizá-los sob determinante ótica cênica. Movimenta com tantos instrumentos quando o texto oferece (humor, mistério, ação, absurdo, desvios) o ritmo narrativo, oscilando entre a tensão abstrata e o cômico embutido, sustentando uma atmosfera imponderável que se desmente continuamente. Com produção modesta - cenário de poucos elementos mas eficiente de Ary Coslov, figurino cuidado de Biza Vianna (os sapatos vermelhos da senhorita Cutts ajudam a compor a personagem) e a iluminação sensível de Aurélio de Simoni -, “A estufa” tem tradução fluente de Isio Ghelman e Ary Coslov. Mas o diretor alcança maior voltagem na condução do elenco, que consegue transmitir as ambiguidades dos personagens em interpretações que se concretizam em pausas e efusões em ritmada sequência. Mario Borges como o irascível diretor, atribui pusilanimidade e cinismo às atitudes desconcertantes daquele que se revela expansivo para esconder manipulações obscuras. O ator demonstra fina sintonia com o Roote, materializando com humor na medida e subjetividade dosada a fragmentação de uma personalidade fluída. Um trabalho de íntegra elaboração. Ísio Ghelman se destaca pela sutileza e dubiedade com que desempenha o papel de um assessor inescrupuloso de frases de gramática servil e dissimulada. Uma atuação bem traçada. Marcelo Aquino como um bêbado desenha em gestos largos e malabarismo dançado um ritual de disfarces que, em alguns momentos, lembra uma figura de Magritte. Pedro Neschling, em que pese a carga intensa que empresta ao jovem crédulo, é fiel e coerente à sua composição até o final. Paula Burlamarqui se sai melhor ao expor fisicamente as manhas sedutoras da senhorita Cutts. Thiago Justino, perfeito no velho zelador, está mais contido como o fiscal.      

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Temporada 2014

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (17/9/2014)

Crítica/ Tríptico Beckett  
Triângulo de pulsões e ruídos dissonantes

São três mulheres, em idades diferentes, que falam de movimento, de chegadas e partidas, de transposição e mergulho, de escuro e silêncio, mas que permanecem estáticas no vazio da percepção. As palavras não contêm atos, levam a lugares de tensão, reproduzem vozes sem futuro, expõem a aspereza de sentidos, percorrendo zonas sensíveis, mas anestesiadas em ruidosos estertores. “Tríptico Beckett” reúne novelas de Samuel Beckett, que não foram escritas para teatro, com títulos que insinuam esboços narrativos sem interrupções do fluxo da linguagem e do jogo interminável de incertezas. ”Para o pior, avante” há que ir para onde se sabe conduz o corpo cansado. Em “Companhia”, alguém propõe o risco que fere como espinhos na carne. E “Mal visto, mal dito”, a felicidade está no fim da escuridão que apaga os vestígios de vida. Não há histórias, sequências e pontos referenciais que aportem o percurso, apenas fluência de palavras que se desdobram em significados, que revelam outros tantos até ao limite de se transformarem em ritmo puro, ficção sonorizada e ruídos dissonantes. Tantas entrelinhas provocam fricção entre a forma de penetrar em imponderáveis imagens verbais e improváveis estado de consciência. Um caminho poético-existencial, que exige disponibilidade para deixar ouvir as reverberações que matizes de sombras espalham em angustiantes ramificações. Roberto Alvim unifica o tempo dramático com intérpretes de diversas faixas etárias, menos como registro da sua passagem (da juventude à maturidade), mas como incapacidade de apreendê-lo (da memória à morte). No palco, dominado por onipresente esqueleto, revelando existência descarnada, as vozes praticamente não dialogam, repercutem monólogos interiores e rompem a fronteira do conflito. Nesta fresta narrativa, o diretor instala o triângulo das pulsões, iluminado por intensidades declinantes e vestido com figurino esportivo. Como em seus últimos espetáculos, nos 60 minutos de “Tríptico Beckett”, Roberto Alvim desidrata a cena de aspectos narrativos, eliminando referências ao drama, estabelecendo um espaço de percepções exploratórias múltiplas. Estende ao elenco esse caráter quase sensorial das suas encenações, mantendo as atrizes rigidamente compostas, com pequenos gestos que se dissolvem no ar, em permanente contenção dos meios expressivos e árida modulação vocal. Juliana Galdino é quem melhor traduz essa abstração interpretativa, ao concentrar o dramático na palavra-performática, repleta de ondulações de tonalidade e econômica na carga emocional. Uma atuação tecnicamente depurada, que conduz aos porões da subjetividade. Paula Spinelli recorre a infantilização da voz para trazer as lembranças do pouco vivido. Nathalia Timberg, no centro da cena, prostrada em uma enorme poltrona, cabelos brancos soltos e rosto sem artifícios de máscaras teatrais, impõe o contraste da lucidez com a o último sopro de vida.