Crítica do
Segundo Caderno de O Globo (20/8/2016)
Crítica/ “As
cadeiras”
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Duo interpretativo em tons diferentes |
Para assistir a versão de “As cadeiras”, dirigida
por Ney Latorraca, é necessário conhecer a ambientação que o autor, o romeno
Eugène Ionesco estabeleceu para os dois velhos em cena. O casal que recebe
figuras socialmente importantes para uma conferência definitiva sobre verdades
da existência, esgotam em palavras o
sentido da finitude de suas vidas. As figuras dos convidados estão
representadas por cadeiras, que se acrescentam na medida em que cada um é
citado. A materialidade mobiliária dos convivas é determinante para a
composição física e para a interpretação de código verbal que ressalta ritual
de formalidades e atos de convivência ocos. Não obrigatoriamente o par de
velhos necessita aparentar a idade, mas parece indispensável a exposição da
decrepitude: das relações humanas, das palavras vazias e da passagem do tempo. Por
mais que se conceitue a dramaturgia de Ionesco como ligada ao teatro do
absurdo, a apropriação da terminologia precisa se traduzir na estranheza que ultrapassa
o realismo da situação central, e alcance o indeterminismo dos diálogos. Neste
exercício de linguagem, que tem origem no drama realista e se concretiza nos
substratos do ilógico, só se torna possível no palco quando há circulação entre
os dois planos. Ainda que Ionesco transfira à plateia o preenchimento das
imagens abstratas do jogo cênico, há que interpretá-lo de forma mais concreta.
A direção de Ney Latorraca faz uma leitura plana, reduzindo a cenografia e a
contracena dos atores. Diretas e frontais, as interpretações procuram se
afirmar como presenças individuais, e não como atuação em dupla. A
descaracterização etária e a sobriedade visual restringem, na sua expressão simplificadora,
o espaço de uma narrativa já muito explorada. O diretor obscurece a montagem, sem
revelar alguma visão que justifique a ausência de clareza e das razões para se
encenar texto com data e assinatura tão assinaladas. Tássia Camargo e Edi Botelho
percorrem, em atuações paralelas, caminhos que individualizam, em tons
diferentes, a musicalidade dramática que só se justifica como duo.