Crítica do
Segundo Caderno de O Globo (12/8/2016)
Crítica/ “Os
insones”
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Sensações de uma guerra urbana |
A adaptação teatral de “Os insones”, romance de
Tony Belloto, guarda do original a ingenuidade e o esquematismo nos personagens
e na estrutura narrativa. A diferença entre palco e livro está na gradação. A
história se concentra em Samora, jovem negro de família abastada, que deixa o
apartamento no Leblon e sobe a favela, imaginado-se portador da justiça social
e intérprete de causas revolucionárias. O contato com a liderança do tráfico no
morro e a companhia da namorada que o segue provocam a mobilização de forças
policiais e familiares no resgate do casal. As situações sumárias não permitem
modular contradições sociais que se insinuam por entre discurso e ação políticas.
Neste mural de traços carregados, sobressaem alguns riscos finos, na captação da
temperatura alta e da tensa atmosfera de certa sensação coletiva urbana. A
montagem de Erika Mader se volta para os aspectos mais exteriorizados da trama,
sobrevoando o painel geral com cortes sucessivos em que os atores entram em
saem de cena, como em seriado editado previsivelmente. A cenografia de Lorena
Lima, que lembra icebergs em miniatura, atrapalha a movimentação dos atores, que
ao lado do figurino de sugestão fashion de Bruna Perlatto, interfere na
iluminação desenhada de Rodrigo Belay. A ideia de vigília, que o título
informa, não se encorpa numa direção empenhada, mas com evidente inexperiência,
demonstrada pela dificuldade em ambientar no teatro a indisfarçável referência
a séries televisivas. A citação a ‘“A gaivota” de Tchekhov, já postiça no
livro, se torna no palco, intrusa e inoportuna. O elenco reproduz em atuações desniveladas,
o ritmo do grupo. Lilian Rovaris e José
Karini seguram diálogos convencionais. Guilherme Ferraz se esforça para
convencer que foi Samora Machel (líder da independência de Moçambique) o
inspirador do nome de seu personagem e de seus delírios libertários juvenis.
Polly Marinho não convence como chefe do tráfico, mas pelo menos areja com
humor a seriedade inalcançada da montagem.