Crítica/ “Decadência”
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Gesticulação para sublinhar tempos vazios e espaços paralelos |
A narrativa do inglês Steven Berkoff se concentra
em dois casais que convivem em tempos vazios e espaços paralelos, vivenciando a
saturação dos excessos e o estímulo para experiências com sexo e drogas em
saciedade primária dos sentidos. Os casais mantêm proximidade num quadro de
decadência moral, em que cada personagem representa uma segmentação da
sociedade inglesa. Todos pertencem à elite, com algum substrato em outro
patamar, e seu comportamento se circunscreve a um meio social e a um momento
político que pretende refletir a Inglaterra dos anos 1980, quando o texto foi
escrito. O que escapa à ambientação social e relembra drama burguês, é a ironia
como o autor trata dos embates dos pares com o vazio de suas existências,
relativizando a superficial e explícita carga crítica ao decadentismo. A
projeção cênica deste texto de ações paralelas, em que dois atores interpretam
quatro personagens, é o movimento que convenciona as duplicidades e aciona as
diferenças. O diretor Victor Garcia Peralta construiu, ao lado da diretora de
movimento Marcia Rubin, um espetáculo coreografado. Neste balé de cinismo, os
gestos acompanham a impostação afetada que é dada às palavras, possibilitando
aos atores exercício exploratório de interpretação física. Corpo e voz comentam
as atitudes, em embate dissonante que harmoniza os contrários. Nem sempre esta
opção permite perceber as mudanças de casais, menos afetadas pela reiterativa
mímica gestual do que pelo progressivo desgaste do código. O despojamento da
área de representação, reduz a cenografia de Dina Salem Levy a um sofá-banco, único objeto na arena das
disputas. A iluminação de Felipe Lourenço
é um tanto dispersiva para o necessário intimismo, e indistinta na
precisa diferenciação das atitudes do quarteto de personagens. A trilha sonora
de Átila Calache e Erom Cordeiro se mostra irrelevante. Os atores estão
integrados à chave forma e som que comanda o dualismo descarnado da montagem.
Aline Fanju sustenta a agilidade das transformações das duas mulheres, ainda
que tenha dificuldades em assinalar a frivolidade de uma e a vulgaridade de
outra. Erom Cordeiro tipifica melhor as reações físicas, tanto do cafajeste
vulgar, quanto do amante entediado.