terça-feira, 6 de março de 2012

10ª Semana da Temporada 2012


Crítica/ Adeus à Carne
Na sombra de um desfile de mazelas
A montagem desta criação e direção de Michel Melamed, em cartaz no Teatro Ginástico, está repleta de intenções e a maior e mais visível delas é a ambição de utilizar a estrutura do desfile de escolas de samba para inverter o sentido da ritualização da festa. A narrativa fluvial da passagem por uma certa avenida Brasil, naquela em que desfilam ensombradas mazelas e indisfarçáveis indigências, evoluem passistas numa dança, ora barroca, ora desconstruída. Praticamente sem palavras, com vozes que são metaforizadas por gestos, narrando o que a escola de samba oculta na formalização do que celebra e na opacidade do que brilha, Adeus à Carne fica em zona expressiva entre o teatro e a performance. Lá estão a lembrança de Bob Wilson, os movimentos de Pina Bausch, e vagas citações a Gerald Thomas, ainda que se reconheça a assinatura de Melamed e a extensão de seu universo cênico, inquiridor, palpitante, conectado com a inquietação. Uma vez mais, o autor e diretor busca  concepção cênica que o conduz por rumos pouco ortodoxos. A cada espetáculo, o risco é alto, especialmente pela releitura das convenções. Os caminhos através dos quais percorre tessituras de linguagem o levam para áreas com códigos de comunicação menos digeríveis. Em Adeus à Carne há cenas, dramática e visualmente, impactantes, mergulhos em imagens referenciadas a ritos (religiosos, carnavalescos, teatrais) e movimentos de um balé operístico de som sufocado. A essas cenas se interpões algumas outras que se fecham em si mesmas, incapazes de se lançar à platéia, a não ser pela forma de estranhamento que provocam. A montagem transmite a sensação de que foi gestada em intenso processo de invenção, de que a idéia inicial foi somente pretexto para que, ao longo dos ensaios, se desfizessem certezas, se eliminassem propostas, e se inventassem alternativas. E neste rastro ficaram muitas possibilidades pelo percurso. A palavra, talvez, tenha sido a maior delas. Quando aparece, em repetidas inflexões na cena final, chega tarde e encerra a encenação de modo apagado e, de certo modo, dissociado do restante. Mas a projeção que a cenografia insinuante e os objetos inesperados de Bia Junqueira com seus vôos corporais,  cabeças televisivas e demais elementos visuais, sancionam  a força roubada à palavra. A iluminação de Adriana Ortiz é fundamental para sustentar o poderoso desenho cenográfico. Os atores – Bruna Linzmeyer, Michel Melamed, Pedro Hnerique Monteiro, Rodolfo Vaz, Thalma de Freita e Thiare Maia – são as marionetes deste sombrio desfile do carnaval de uma nacionalidade brutalizada, que dançam conforme a música de um cortejo de contradições e falência social.

                                                    macksenr@gmail.com