segunda-feira, 18 de julho de 2016

Prêmios

Prêmio Cesgranrio
"Os sonhadores": três indicações

Finalistas do primeiro semestre 

Diretor: Guilherme Weber (“Os realistas”)
             Duda Maia (“Auê”)
             Márcio Abreu (“Nós”)  

Ator: Emilio de Melo (“Os realistas”)
         Matheus Nachtgale (“O processo de conserto do desejo”)
         Álamo Facó (“Mamãe”)

Atriz: Debora Bloch (“Os realistas”)
         Helena Varvaki (“A outra casa”)
         Susana Faini (“O como e o porquê”)

Cenografia: Daniela Thomas e Camila Scmidt (“Os realistas”)
                    Aurora dos Campos (“Os sonhadores”)
                    André Cortez (“Gota d’água – a seco”)
    
Iluminação: Rodrigo Belay (“Os sonhadores”)
                    Maneco Quinderé (“O como e o porquê”)
                    Tomás Ribas (“Fatal”)

Figurino: Kika Lopes (“Gota d’água – a seco”)
               Kika Lopes (“Auê”)
               Luiza Fradin (“Seu eu fosse Iracema”)

Autor: Álamo Facó (“Mamãe”)
          Rodrigo Portela (“Alice mandou um beijo”)
          Diogo Liberano (“Os sonhadores”)

Direção Musical: Pedro Luís (“Gota d’água – a seco”)
                            Alfredo Del-Penho e Beto Lemos (“Auê”)
                            Luís Barcelos (“A cuíca do Laurindo”)

Ator em Musical: Hugo Germano (“A cuíca do Laurindo”)
                            Alexandre Rosa Moreno (“A cuíca do Laurindo”)

Atriz em Musical: Laíra Garin (“Gota d’água – a seco”)

Especial: O elenco de “Auê”
                Wolf Maya pela criação do Teatro Nathalia Timberg
                César Augusto pela curadoria do Galpão da Gamboa

Espetáculo: “Nós”
                    “Mamãe”
                    “Auê”




sábado, 16 de julho de 2016

Sábato Magaldi

Elegância, discrição, rigor e amor ao teatro 
A reunião das críticas de Sábato Magaldi em livro recém-lançado recebeu o título apropriado de “Amor ao teatro”, e não apenas por ter dedicado, dos anos 50 ao final da década de 1980, ao exercício jornalístico de analisar as temporadas do Rio e de São Paulo, mas também pela atuação como professor, ensaísta, espectador obstinado, visionário de carreiras e avalista de tendências. Nas primeiras resenhas, no Diário Carioca, defendeu com desassombro a dramaturgia de Nelson Rodrigues, de quem se tornaria amigo e teórico de sua obra. A opinião sempre fundamentada não excluía os atores populares, dimensionando o anárquico estilo de Dercy Gonçalves ou destacando as qualidades de intérprete de Chico Anysio. O Teatro de Arena e as formulações cênicas de Augusto Boal foram acompanhadas com atentas e desbravadoras reflexões, estendidas a autores, como Jorge Andrade, Plínio Marcos e Maria Adelaide Amaral. O rigor, expresso em escrita límpida e sem concessões aos adjetivos, não sofreu qualquer arranhão no período da ditadura, mesmo quando obrigado a malabarismos verbais para deixar claras as suas ideias. Seu ativismo intelectual o conduz a secretaria municipal de Cultura de São Paulo e o alinha com os debates sobre os modos de produção e o identifica com os movimentos reivindicatórios da classe teatral. Mas mesmo ao se confundir com a ação artística fora dos palcos, mantém a independência e autoridade para apontar “ tremendo equívoco do Teatro Oficina”, e “precário resultado dos espetáculos” nos balanços anuais das temporadas. Sucessor de Décio de Almeida Prado em jornal, foi, ao lado do decano, responsável pela formação da crítica no período da moderna cena nacional, que fixou em obras como “Panorama do teatro brasileiro”.  A aluna Mariângela Alves de Lima, ao comentar suas publicações lembrou que “nos livros de Sábato Magaldi, não existe aquela lassidão digressiva que prejudica boa parte da nossa (de outro modo valiosa) produção acadêmica”. Figura amável, de fala suave e mineiramente matreiro, Sábato anotou, ao longo de décadas de prática profissional, casos de bastidores e detalhes de coxia que sua discrição impôs definitivo ineditismo. A elegância da forma e a acuidade da observação, exercidas com disciplina, ética e nenhuma condescendência, marcaram a impecável atuação de testemunha de mais de 50 anos do teatro brasileiro. A  sinceridade na prática como reflexo da densidade da teoria se resume na sua constatação de que “o amor pelo teatro e a boa-fé são as qualidades primeiras da função do crítico”.     

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Temporada 2016

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (13/7/2016)

Crítica“Urgente”
Grupo mineiro Luna Lunera conceitua o realismo

A ideia é mixar tempos e metáfora em narrativa com diálogos pretensiosos e dramaturgia desequilibrada. Prédio, em permanente ameaça de ruir, abriga desgarrados do presente, que voltados ao passado perderam o futuro. A chegada de um novo morador e a sua passagem pelas vidas dos demais, anuncia a iminência do desabamento. Os problemas do texto, que avançam para a construção da cena, derivam do descompasso da ação dramática (realista) com a montagem (conceitual). A direção desequilibrou ainda mais a relação desses planos, restando presunções que não se sustentam para além de seu próprio artifício. O espetáculo está, constantemente, a se dissociar da plateia, e não apenas pelo tom sombrio da luz e ritmo claudicante. “Urgente” projeta a imagem de que foi concebida para o público interno, aqueles que o criaram, incapaz de atingir quaisquer outros, que não os manipuladores de seus códigos. Quem assiste é levado a se distanciar de histórias de repressão emocional, embrulhadas em inventiva ambientação sonora, perdida pela banalidade da utilização. O elenco parece compartimentado em uma única forma interpretativa, submetido ao papel de autores e atores, tarefa dupla que se demonstrou irreconciliável.  

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Temporada 2016

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (8/7/2016)

Crítica/ “Cais ou Da indiferença das embarcações”
Ilhados em histórias à deriva

Histórias de três gerações desembarcam no cais da Ilha Grande, onde um barco é personagem e encontros e suicídio, amores e desencontros se entrecruzam. A ilha, que abrigou um presídio, confina os sentimentos daqueles que cercados pelo do mar, concentram desejos irrealizáveis no espaço restringido das vivências. A mulher que se apaixona por um preso, e que se mata com os pés atados a uma cadeira, à beira do cais, desencadeia as peças soltas de vidas que se confundem nos impulsos e se definham em gestos repetidos. O barco, que transportava presos e mercadorias do continente à ilha, é quem conta as histórias que se interpõem em tempos paralelos e em ondas dramáticas, embalados por canções de inspiração marinha. A existência dessa embarcação narradora está impregnada das dores e amores de quem se deixa levar por percursos de que não se pode desviar. Metáforas, símbolos, saga, memória, realismo, melodrama, poética, “Cais” costura variados meios expressivos para escrever folhetim cênico em capítulos que se armam na alternância de épocas e na confluência das emoções. O texto de Kiko Marques despeja, com a sinceridade com que se identificam os personagens e a generosidade como se expõe a trama, o caudal de cenas que desaguam, em três horas, numa torrente contínua de sentimentos trespassados. O autor não economiza fabulação, detendo-se em detalhes aos quais empresta relevância dramática. Na direção, Kiko Marques acomoda na cenografia-passarela de Chris Aizner, o elenco coeso que tem no sentimentalismo a base das suas interpretações. A estrutura bem azeitada desta novela de ilhéus emocionais, mantém o ritmo cênico pela capacidade de se despregar da linearidade e atracar no lirismo de novela. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Temporada 2016

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (6/7/2016)

Crítica/ “Galileu Galilei”
O astrônomo que renega a verdade científica 

A encenação de “Galileu Galilei” no Oficina, em 1968, terminava com o elenco dançando “Banho de Lua”, sucesso da cantora Cely Campelo. A versão da diretora Cibele Forjaz para o texto de Bertolt Brecht parece ter partido desse ponto. A vida do astrônomo, contada pelo dramaturgo alemão, o apresenta como cientista que afirma a sua fé na razão humana, e  homem  que gosta dos prazeres da mesa e do copo. Ao defender, e provar, que a Terra girava em torno do Sol, foi ameaçado de arder na fogueira da Inquisição, que o levou a abjurar da verdade.  Galileu não tem nenhuma máscara, e seus atos, até os de negação, reafirmam sua humanidade diante da “paixão pelo conhecimento e volúpia pela pesquisa”. É aquele que sustenta que a justificativa da ciência está em “aliviar a canseira humana”. Pelas técnicas de distanciamento e didática de Brecht, Galileu poderá ter tantas interpretações quanto se explore a dialética entre divertimento e reflexão. Cibele Forjaz estabeleceu a sua convenção cênica na substituição da palavra ciência por arte, reencontrando na troca o fio condutor que aproxima a sua montagem do final do espetáculo de José Celso Martinez Correa de há quase cinco décadas. O carnaval que libera é o mesmo que mascara, e as formas de teatro que derrubam a ilusão da consciência são expostos pela diretora nas contradições de seus efeitos e na reavaliação da sua ideologia. O personagem masculino é interpretado por uma atriz e marchinhas carnavalescas não deixam esquecer o poder do dinheiro. O estranhamento é atualizado por um panelaço e o tempo, revivido por melancólica execução da Internacional Comunista. Os recursos se desdobram na busca incessante dos sentidos, recondicionando certos códigos teatrais para expandir seus limites. Os atores se mostram, todo o tempo, como seus personagens, figuras que se exibem em arena carnavalizada, repleta de truques que estimulem a atenção e levem ao pensamento crítico. Nada mais brechtiano. A proposta de Cibele Forjaz segue, com vibração tropicalista os cânones da teoria, com tendência a privilegiar os acordes populares. Mas a tonalidade reflexiva fica sufocada pela escolha do exibicionismo como linguagem dominante, colocando no mesmo formato indivíduo e pensador. Múltiplas em estímulos, a encenação se dispersa na explosão do debate central em tantas referências a estilos, que música, atuação, cenografia, adereços e até maquiagem adquirem a padronização do alarde. A trupe dos atores num alinhamento com saltimbancos, se distribui por um quadro integrado à proposta distendida da direção. Denise Fraga, por força de Galileu conduzir a narrativa, se impõe plenamente no palco.            

domingo, 3 de julho de 2016

Temporada 2016

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (3/7/2016)

Crítica/ “A reunificação das duas Coreias”
Sequência de situações numa leitura sem contornos 

São 17 cenas, independentes, autônomas, sem qualquer elemento integrador a não se o que cada uma delas determina por sua própria dramaturgia. O que expõem, são pequenos quadros do cotidiano que capturam o absurdo das banalidades, a estranheza dos sentimentos e crueldades sociais. Ao promover embates surdos de contrastes verbais, o autor Joel Pommerat revisa o sentido da palavra, desencarnada do uso retórico e a qual atribui ambivalências reveladoras. As dualidades dos combates demonstram que existe unidade nos contrários, unificados pelo território militarizado da convivência. E as escaramuças se espalham por gêneros teatrais, que fazem farsa do casamento, drama de filhos, comédia do dinheiro, vaudeville do amor, melodrama da memória e tragédia da faxina. Tais citações a estilos imperceptíveis surgem por entre perguntas que não se responde, zonas obscuras que apenas se deixam entrever, histórias que se contam parcialmente e o “amor que não basta” e acaba em tempestade. Com refinamento nessa tessitura estilística, Pommerat amplia o detalhe na diversidade do painel. O olhar se dirige ao traço fora do esquadro, e a ênfase está na palavra entreouvida e nos vazios daquilo que já está preenchido. Esta dramaturgia de tantas minudências, mas de aspecto abrangente, pode enganar os encenadores. Em leitura mais apressada, o que emerge são as situações que se desenrolam em sequência descontínua e ritmo acelerado. O diretor João Fonseca caiu na armadilha da avaliação plana de um roteiro de contornos. As cenas têm tratamento nivelado pelo que exibem, não pelo que poderiam revelar, explicitando lacunas e certificando a percepção. A expectativa da plateia é a de aguardar o próximo quadro pelo que possa trazer de mais intrigante, ao contrário do que a progressão cênica tem de especificidade autoral. A necessidade de uma cenografia móvel que ambiente os títulos que se sucedem, dá a medida da aposta na ação narrativa, mais do que na contração do escondido. A impressão é a de que o diretor desenhou uma comédia de absurdo, em voo rasante sob superfície lisa e acomodada. Ao elenco é exigido que atue no mesmo plano de padronização interpretativa. Os atores se empenham em mostrar  situações, e não sublinhar o encoberto. Reiner Tenente e Veronica Debom circulam como pontos de apoio em várias contracenas. Gustavo Machado tem presença na cena da amizade. Solange Badim se volta ao humor direto, enquanto Bianca Byngton explora comicidade algo irônica. Louise Cardoso encontra o tom no quadro do valor. Marcelo Valle é quem se aproxima da entonação rascante e dos atritos perversos da dramaturgia de Joel Pommerat.