terça-feira, 11 de junho de 2013

21ª Semana da Temporada 2013


Montagens paulistas em cartaz no Rio

Crítica/ Oresteia
Ruídos de ancestralidade diante dos barulhos contemporâneos
Em Oresteia, como também em As Suplicantes, Os Persas, Sete Contra Tebeas e Prometeu Acorrentado, que Roberto Alvim e o grupo Club Noir apresentam em dias alternados no Espaço Sesc, a tragédia de Ésquilo é sintetizada, não só cênica, como temporalmente. Em duas partes, com menos de 60 minutos no total, a Oresteia se desidrata de aspectos narrativos (a trama se torna secundária), elimina referência ao drama (as vozes se articulam no espaço poético), e se transfigura em quadro (o movimento é quase estático e a luz quase escuro). Num quadrilátero, com os atores em silhuetas, postados em rígida composição, ouvem-se, do fundo desse lugar de sombras, palavras que evocam, mais do que contam. Com um neón ao fundo, a única luminosidade fixa, e figuras de vestes pretas, que se desenham como contornos, se obscurece o olhar, esvaziado de imagens, modificações e ação. É como se a cena fosse apagada de suas prerrogativas visuais, reduzida à possibilidade de fruição como sonoridade, como se buscasse um ruído de ancestralidade e o projetasse no barulho da contemporaneidade. Ao apagar a visão direta, acende-se a provocação de olhares, tantos quanto cada espectador que se defronta com a encenação possa vir a emprestar-lhes significações. Lançam-se entonações que são capturadas sem lógica sequenciada e por percepções exploratórias múltiplas, que o espetáculo propõe, provocadas por sua delineada estrutura corajosamente pulsante e vivamente desestabilizadoras de cânones.           

Crítica/ umnenhumcemmil
Intenção desmedida de reproduzir imagens literárias
Com esta adaptação do romance de Pirandello, o ator Cacá Carvalho está de volta ao Teatro Glaucio Gill e ao autor italiano com o qual tem convivido no palco nas últimas duas décadas. A notória admiração de Cacá por Pirandello talvez tenha exorbitado na medida desta transposição do literário para a cena. A dramaturgia resultante do original pirandelliano, em que as obsessões do autor (identidade e personagem, julgamento e aparência, forma e realidade) predominam como imagens, é exposta com a mesmo caudaloso jorro com que se desenvolve no papel, sem correspondente ajuste no palco. Monólogo dirigido por Roberto Bacci, para o qual a plateia é solicitada a preencher a cena e figurar como cenário, não consegue se desprender da narrativa literária, por maior que seja o esforço do ator em ilustrar o substrato da escrita. Para tanto, Cacá Carvalho recorre a seu arsenal interpretativo, com seu peculiar domínio vocal, maleável máscara e pródiga gesticulação. Nesse acúmulo de efeitos, Cacá se distancia do adensamento para afogá-lo em jogo exibicionista. Em quase duas horas, o ator se entrega com tal empenho a reescrever imagens literárias que o descompasso da tradução cênica alcança somente honesta intencionalidade.

                                                macksenr@gmail.com