sábado, 22 de junho de 2019

Temporada 2019


Com temporadas cada vez mais curtas (três a quatro sessões semanais durante três semanas), a permanência em cartaz dos espetáculos reduz a possibilidade de fidelizar plateias. Montagens em cena nos teatros do Sesc seguem esta configuração da oferta.

“Peça de Casamento”
Casal em estado crítico
 Edward Albee, autor de “Peça de casamento”, que na direção de Guilherme Weber ocupa o Sesc Ginástico, é da geração de dramaturgos americanos, que se seguiu aos “clássicos” Tennesse Williams e Arthur Miller. Na mesma linha do realismo psicológico dos seus antecessores, que consolidaram o gênero e estabeleceram a técnica do playwriting, Albee se desprende do quadro social que os antecessores esboçaram diante dos conflitos familiares, para se fixar nas relações, em especial de casais, em estado crítico. Este texto, escrito nos anos 1980, não é tão contundente na exploração da crise conjugal quanto em “Quem tem medo de Virginia Wolf”, lançado duas décadas antes. Mas se reconhece a habilidade na construção dramática, apoiada em golpes de teatro (a primeira fala do marido) e na exposição irônica de intimidades (o diário da mulher sobre da vida sexual da dupla). Não há para onde fugir, e quem dá a partida para que, pelo menos aparentemente, se chegue a uma solução é o marido. Vindo do trabalho, como em qualquer outro dia, anuncia que está abandonando a mulher. Essa fria e inesperada entrada em cena deflagra discussão sobre o casamento e seus escombros e lança na arena do confronto, os despojos  do que já foi afeição e sensualidade. Há nos diálogos, mais do que na ação, contundência verbal, às vezes ferina, outras irônicas, que ressalta as entrelinhas, por entre aquilo que é explícito e a subjetivismo do não dito.  drama se localiza neste espaço, no subterrâneo dos sentimentos e na superfície das emoções. Guilherme Weber desenha a encenação numa tentativa de confrontar o realismo de raiz, abandonando cômodas rubricas de identificação em favor da frontalidade dos rompimentos. A ambientação cenográfica de Daniela Thomas e Camila Schmidt  confirma o desenho da direção. Portas espelhadas  que refletem a presença dos atores, e parcialmente da plateia, duplica as imagens e elimina quaisquer outros elementos. Frente a frente, espelhando o conflito, desnuda-se o texto, sem outros apoios visuais e maiores movimentações. Mas como esta é uma “peça de atores” são eles que desempenham o jogo atritado das sucessivas  intervenções pendulares dos sentimentos e reações. Como polos equidistantes, Eliane Giardini e Antônio Gonzalez estabelecem contracena que dialoga na inversão. A atriz empresta ao naturalismo da sua base interpretativa, sarcasmo domesticado. O ator se faz distante para construir a nudez, que se revela unicamente física.

“Interior”
Bonecos com fios invisíveis
São simbólicos os personagens de Maeterlinck, como simbólicos são os seus pensamentos. O autor belga do final do século 19, demonstra em “Interior”, a impotência humana diante de seu destino. O maior e mais imperioso deles, a morte. Bonecos manipulados por fios invisíveis, mascarados por ações para insuflar-lhes vida, igualados nas formas de existir, compartilhando o imponderável, na inconsciência e na pretensa racionalidade, são todos espectadores do que não lhes cabe dominar. A jornada do velho da aldeia, ao lado do forasteiro, que descobriu o corpo de uma jovem, afogada no lago, tem como fim, dizer à família da menina o que lhe aconteceu. Na hesitação de como fazê-lo, o aldeão ronda a casa da família, entrevista pelas janelas em ações banais e na ignorância do que não supõem vir a descobrir em seguida. Às voltas de um ato do qual se desconhece as motivações, discorre sobre a tragédia (“a desgraça se perde nos detalhes”). Relembra o encontro, mais cedo com a jovem, duvidando do que parecia impossível (“ela sorriu como sorriem os querem se calar ou têm medo de não serem compreendidos.”).  Olha para ao quadro familiar com descrença (“Elas têm um ar de bonecas imóveis e tantos feitos lhes passam na alma...elas não sabem o que são.”). E ao final, quando os habitantes da aldeia chegam e o velho já cumpriu o papel de anunciador a tragédia à família, o estrangeiro constata: “a criança não acordou”. A encenação de Fabiana de Mello e Souza é sensível à construção fabular e à poética alusiva do original, em tradução límpida de Fátima Saad. Os elementos de pesquisa e imagética das máscaras, a que se dedica, há décadas, a diretora, estão amadurecidos e bem incorporados na Arena do Sesc Copacabana. A ambientação de Mina Quental centraliza em um cubo-casa, movido pelos atores, e que obedece a circularidade da área, a sincronia das cenas. Galhos circundam a plateia e personagens e máscaras surgem com precisos efeitos de iluminação, assinada por Ana Luzia de Simoni e João Gioia. Sutis acordes de musicalidade seriada (direção musical de Karina Neves e Jonas Hocherman) preenchem o envolvente espaço. Para além deste quadro cenográfico-musical, “Interior” alcança a medula da narrativa na forma como encontra a representação texto, basicamente, descritivo. A dubiedade dos sentimentos que se constroem com aproximação até a verdade, embaçada pela névoa do cotidiano, encontra atmosfera cênica de tessitura refinada. 

“Jogo de Damas”
Drama com as vestes trocadas
“Nada a fazer” é a primeira fala de uma peça de Beckett, como poderia ser de qualquer outra deste autor. O que ressalta nesta devastadora percepção, reflete o que sua dramaturgia tem de niilismo e descrença absoluta na aventura humana. Ainda que rompa com a estrutura dramática com seus diálogos e personagens destituídos de “história”, e de vestígios de “narrativa”, Beckett se fundamenta numa dramática que se reconhece na tradição, desfocada em seus princípios. ”Jogo de Damas” em cena no Mezanino do Sesc Copacabana não será uma adaptação de “Fim de Jogo”, já que a ficha técnica informa ser um texto de Stephane Brodt, “a partir da obra de Samuel Beckett”. Texto autônomo, com fortes referências ao original, certamente que não é. Poderia se enquadrar como um “corte seco” do cinema, em que há uma passagem de um plano ao outro? O mais provável é que houve uma troca nas regras do jogo, não apenas na mudança do título, mas na reversão de sentidos. Sinais foram trocados para que que a encenação adquirisse outra conformação. “Jogo de Damas” perde a possibilidade de versão, minimamente inventiva e renovadora, para configurar-se apenas como drama. A tensão que a montagem do Amok Teatro procura com o apagamento dos silêncios, inação, mensuração das palavras e dos gestos mínimos, se traduz em ruídos e atuação, e na ampliação das vozes e gestualidade. A intervenção da música do compositor estoniano Arvo Part reforça a emoção como a partitura dominante. O cenário, de vaga inspiração em imagens de Magritte, se desenha como poética estetizante. Stephane Brodt sobrecarrega em composição corporal e na voz empostada, em mão inversa aos sentimentos que pretende projetar. Gustavo Damasceno adota figura travestida, que transfere para a máscara facial um histrionismo que as palavras que diz não contêm. Neste jogo de cartas trocadas, as damas mudam de roupa e se vestem de velhinhas rabugentas de um drama inexistente.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Temporada 2019


Crítica publicada em 4/1/ 2017. “Antígona” está de volta ao Teatro Poeira.

“Antígona”, de Sófocles, é submetida pelo diretor Amir Haddad e pela atriz Andrea Beltrão a um reposicionamento cênico para situá-la em outro plano narrativo. A tragédia se conta a partir de enquadramento teatral que sugere a informalidade de receber o público à entrada, de permitir a saída a qualquer pretexto e deixar os bastidores (camarim e luz) abertos. A cenografia prende à parede papéis com os nomes de deuses e antepassados, fundadores míticos e atores humanos dos acontecimentos a serem expostos. Ao situar os antecedentes dos atos que levam Antígona a enfrentar Creonte, se estabelece a representação da humanidade em diálogo com a transcendência. Com o quadro posto, o modo e o estilo da encenação ficam à mostra, desvendados pelo artesanato de palavras de contador de histórias. O que emerge desta arquitetura narrativa é uma eclosão de personagens que falam de prodígios por uma única voz e com os quais se confundem a fatalidade de existir com a incerteza das ações. A contenção de meios e a concentração do monólogo impõem uma carga de informações que age no sentido inverso à pretendida comunicação mais direta e ao didatismo do contexto. O que foi concebido para ser exposição (as relações com o mitológico) ganha abrangência que descarna a força de Antígona como aquela que enfrentou os limites da desobediência e os mistérios da morte. Os movimentos entre a espontaneidade de contar e a ritualização da linguagem produzem quebras e intermitências que lançam a plano secundário a tragicidade do ato transgressor e a poética do drama verbal. Andrea Beltrão se faz múltipla para se tornar única. A intérprete que introduz o tom de conversa no início, é a mesma que em apenas uma hora corporifica, com uma echarpe e troca de sapatos, goles de água e lágrimas contidas, uma Antígona de natureza pulsante. E de quem retira a sua essência (“Nasci para o amor.”) e ecoa os ruídos do mundo (“Nada é mais prodigioso na Terra do que o homem.”). A atriz desvenda os vários significados que a historicidade acomoda, ao lado da atitudes propulsoras da “trama”, em paralelismo que nem sempre o arcabouço cênico facilita. Superando com “naturalidade interpretativa” os oscilantes planos da estrutura, Andrea ensaia o trágico, delimita o drama e redimensiona o monólogo.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Temporada 2019


Crítica publicada em 4/4 quando do Festival de Curitiba. “P.I. Panorâmica Insana” está atualmente em temporada no Teatro Prudential, ex-Teatro Manchete, na Glória.
Vestir os nus
“P.I Panorâmica Insana” - Escritura cênica, como a definiu Bia Lessa, que assina a direção geral, a dramaturgia, ao lado de três outros autores, talvez seja o que melhor sintetize essa coletânea de textos e esquetes, que pretende refletir a perplexidade do momento, a apreensão do agora, o desgaste do diário. O palco forrado por milhares de peças de roupas, ambienta o veste e despe dos quatro atores - Claudia Abreu, Leandra Leal, Rodolfo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira - que se lançam à maratona de troca de peles, personagens e de tipos, numa corrida pela identificação por cpfs, nomes, condição social, existência, atitudes, em cenário devastado pelo caos. Morte, miséria, religiosidade, politica, comportamentos, cotidiano, tantas formas de convívio com as fraturas de mundo, filtradas pela convivência com negações do humano. São cenas ativadas pelo ato de movimentar, como num balé simbólico de troca de vestimentas (papéis, funções, máscaras), frente as toadas das provocações. No enquadramento proposto, há muito mais a intenção de impacto, do que de corte crítico. A inconstância do material, variante do escatológico à convenção do esquete cômico, sob a embalagem de instalação plástica, deixa entrever datação estilística. A cena final, que empacota o espaço, não esconde suas origens e inspiração. Mas é a que a antecede -  o esquete de humor, com os atores no centro do palco, e Rodolfo Pandolfo como matuto -, que conquista o público com verve piadista. 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Temporada 2019/ Festival de Curitiba


Pelo 28º ano, o Festival de Curitiba mantém a sua estrutura, senão intocada, pelo menos parcialmente ajustada às transformações da cena brasileira ao longo deste período. Ainda como vitrine e com alguma inflexão nesta formulação, a atual curadoria – do diretor Márcio Abreu e do ator Guilherme Weber - da mostra paranaense aponta para algum desvio de rumo, pelo terceiro ano seguido. Com sintonia na produção do eixo Rio-São Paulo, e apontamentos para Belo Horizonte, distribui-se por espetáculos mais identificados com o mainstream (se é possível falar de tal conceito na atual conjuntura teatral), e outros mais próximos a uma cena de rompimentos. As duas linhas ainda estão em acomodação, mas caminham para as trinta edições com o traço majoritário do desenho original. Apenas levemente ruidoso.
Mulheres em volta do fogão
 “As Comadres¨ - Essa comédia musicada canadense se mostrou deslocada, sob qualquer conceito curatorial, na programação do festival, e não só. O deslocamento é também do tempo dramatúrgico, da fragilidade  da sua estrutura narrativa e da precariedade da imagem feminina que projeta. O fato de ter a supervisão geral de Ariane Mnouchkine, um dos nomes mais importantes na cena internacional do século passado, não poderia fazer supor que assinasse, mesmo que reproduzindo a encenação original, montagem inexpressiva. Nada indicaria que alguém pudesse exumar um texto banal de década de 1960, de um autor obscuro e descartável. A única justificativa de encenar material tão pouco estimulante, está no eventual comercialismo entrevisto por produtor à antiga. Mas o pior está na perspectiva de ir além da sua insignificância. As mulheres que se veem no palco vivem o feminino através de chavões sociais conservadores. Donas de casa sem ambições para além de redecorar o lar, competitivas e desonestas entre elas, preconceituosas com aquelas que consideram “decaídas”, e que têm o aborto como estigma.  preconceituosas com as que se perdem, o aborto como estigma. O melodrama, que ameaça de início, se adensa até o inacreditável final, intercalado por letras que o reforçam e música que o ratifica. Nada poderá se mais anacrônico do que essa exibição de um teatro que aponta para sinais contrários à atualidade, e para códigos cênicos passadistas.
Uma fera ternamente furiosa

“Recital da Onça”
- O desafio de Regina Casé, neste monólogo ao ocupar o palco do Teatro Guaíra, era de se fazer presente e comunicativa para os dois mil espectadores que ocupavam as poltronas da sala. Esse mérito, a atriz conquistou, mas ao custo de dosar, um tanto desmedidamente, o one woman show com leituras de trechos literários. A maior parte das pouco mais de duas horas em que está em cena, explora suas características de humor, para divertir e fazer rir, com pílulas de sabedoria. E assim, integra em descompasso, vivências referidas, citação a filme em que atuou, à “trama” da ida a Harvard para “lecture” de autores brasileiros. A ponte improvisada está estabelecida entre a motivação das leituras e a chegada até lá: o medo da imigração americana, a sedução da plateia para fazer parte das escolhas da conferência. Em Curitiba foram lidos fragmentos de obras de Mario de Andrade, Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Guimaraes Rosa e Clarice Lispector. A personalidade performática de Regina é a chave para abrir as páginas dos livros, cronometradas em 20 minutos de leitura cada um. Nesse retrato personalista, a atriz e apresentadora cultua sua imagem, que se sobrepõe aos tópicos literários. Espera-se encontrar a mesma e conhecida Regina da tv, que, entre pausas, enuncia palavras autorais. Os dois planos, self-show e sarau literário, estão interligados pela conquista, pelo humor, da audiência. Na escalada da “ganhar o espectador”, vale até concurso de samba no pé, no qual recatados curitibanos mostraram suas habilidades. Tanta movimentação e apelo, torna secundárias as características dos textos lidos,  esvaziados de força expressiva.  A exceção honrosa fica por conta de “Meu Tio Iuaretê”, de Guimarães Rosa, em que surge uma intérprete vigorosa, corporal e vocalmente, e liricamente furiosa.
Vestindo os nus
“P.I Panorâmica Insana” - Escritura cênica, como a definiu Bia Lessa, que assina a direção geral, a dramaturgia, ao lado de três outros autores, talvez seja o que melhor sintetize essa coletânea de textos e esquetes, que pretende refletir a perplexidade do momento, a apreensão do agora, o desgaste do diário. O gigantesco palco do Teatro Guaíra, forrado por milhares de peças de roupas, ambienta o veste e despe dos quatro atores - Claudia Abreu, Leandra Leal, Rodolfo Pandolfo e Luiz Henrique Nogueira - que se lançam a maratona de troca de peles, personagens e tipos, numa corrida pela identificação por cpfs, nomes, condição social, existência, atitudes, em cenário devastado pelo caos. Morte, miséria, religiosidade, politica, comportamentos, cotidiano, tantas formas de convívio com as fraturas de mundo, filtradas pela convivência com negações do humano. São cenas ativadas pelo ato de movimentar, como num balé simbólico de troca de vestimentas (papéis, funções, máscaras), frente as toadas das provocações. No enquadramento proposto, há muito mais a intenção de impacto, do que de corte crítico. A inconstância do material, variante do escatológico à convenção do esquete cômico, sob a embalagem de instalação plástica, deixa entrever datação estilística. A cena final, que empacota o espaço, não esconde suas origens e inspiração. Mas é a cena que a antecede -  o esquete de humor, com os atores no centro do palco -, que Rodolfo Pandolfo como o matuto, que conquista o público com verve piadista.
Coro marcando presença

“ Abujamra Presente” - A companhia Fodidos e Privilegiados (1901-2000), criada à imagem e semelhança de seu fundador e diretor geral, Antônio Abujamra (1932-2015), reuniu o elenco original para homenagear o seu mentor. Quase 20 anos depois, e dirigido por João Fonseca,  a cria mais identificada com seu mestre, “Abujamra Presente” é a súmula anárquica, provocativa, politizante das montagens e do irreverente pensamento, das boutades e personalidade do encenador. Os sinais ampliados da linguagem cênica dos seus espetáculos - os duplos, a dubiedade dos gêneros - são retomados com comentários, bem explícitos, sobre o momento político, num carrossel que gira entre a memória e o presente reverberado. A versão homenagem-agito, sacode essa salada mista evocativa, com frases de Abu, quadros de ensaios e de espetáculos, cortinas cômicas, e outras provocações (como o título do grupo) sem amarras.  Foi a melhor forma do diretor-pupilo e do elenco devotado invocarem uma experiência coletiva, marcada por temperamento único.