quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (22/2/2017)

Crítica/ “Hortance, a velha”
A ação que escapa pelo fio do telefone

Hortance é uma mulher fora de lugar, distante no tempo, deslocada de qualquer realidade. Velha, evoca o passado como se fosse a única possibilidade de presente. Vivendo do que restou de um cabaré falido, conversa com a irmã, uma interlocutora ausente, que a escuta como um simulacro da plateia, a falar de antigos frequentadores de sua casa de prazeres. No delírio, relaciona os nomes de notáveis fregueses, que tanto pode ser Shakespeare, quanto Getúlio Vargas ou Stalin. Não se trata apenas de uma louca, mas de alguém identificada com a decadência, simbolizada pela companhia mal cheirosa de uma gambá. Menos absurdos do que arbitrários, as situações e o contexto desse monólogo de Gabriel Chalita parecem inspirados em uma vaga peça francesa do final do século 19, que aportuguesa na grafia do nome da personagem a sua pronúncia original. Tudo se mostra híbrido como concepção narrativa e falso como tradução cênica, deixando expostas as fraturas da pretendida comédia e as fragilidades das referências. O diretor Fred Mayrink embalou a montagem em cenário aparatoso de Juliana Carneiro e iluminação sombreada de Paulo Brakarz, na tentativa de criar atmosfera de fim de linha, que de outra forma, o texto ressalta apenas na superficialidade de suas intenções. A imobilidade da trama é ativada pela direção com a constante, e nem sempre justificável, movimentação da atriz, levada a ocupar os espaços do palco e a manipular objetos. Atender ao telefone e driblar os pingos de uma goteira são gestos recorrentes na procura de ativar a ação. Grace Gianoukas se desincumbe da tarefa com o humor característico de comediante e a dramaticidade expansiva de atriz. Predomina o temperamento da intérprete cômica e da humorista performática que se confirma, para não deixar dúvidas de qual é o seu verdadeiro estilo, no postiço número de plateia.          

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (15/2/2017)

Crítica/ “Uma flor de dama”
Ilusão de realidade 

Na tríplice função de autor, diretor e ator, o cearense Silvero Pereira concentrou na sua figura a exposição de um universo que explora com reiterações de seus códigos. Inspirado no conto “Dama da noite”, do gaúcho Caio Fernando Abreu, o monólogo elimina a noite do título para ressaltar a flor que espalha seu aroma insistente pelo convencionalismo de uma imagem. O travesti que mergulha em mais uma noite sem perspectivas, depois de seu show de dublagem e alguma droga, conversa com jovem, em torno de copos de cerveja e ressentimentos. O desabafo para o ouvinte silencioso inclui abuso sexual na infância, preconceito familiar e autocomplacência vitimada. O personagem se situa no que, tantas vezes, se estabeleceu como comportamento à margem e rejeição social. O quadro, que “Uma flor de dama” ratifica e congela em estereótipos, é acrescido pela deterioração do tempo, que desgasta as referências a Aids e impõe tratamento melodramático a questões que pretende denunciar. Silvero constrói a cena de olho nos contornos da sua atuação. No espaço triangular da ambientação, começa por se maquiar no camarim, se desloca para a mesa de um bar, para se desmontar ao final, sentado em vaso sanitário. Nos primeiros e longos minutos, quando os gestos e a dublagem eliminam a trama falada, a composição corporal comenta com melhor competência o que as palavras exacerbam. Os movimentos respaldam a ação oculta com maior dramatismo, ainda que se esgotem na excessiva duração. Como ator, Silvero Pereira detalha, do bater das unhas na mesa ao grito solitário, o travesti no percurso da ilusão à realidade.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (12/2/2017)

Crítica/ “Os vilões de Shakespeare”
Shakespeare ao estilo stand-up

Os ingleses gostam tanto de Shakespeare que não resistem a fragmentar e disseminar a sua obra. É uma tal profusão de coletâneas que reúnem jogos de poder, reis, rainhas e tantos outros personagens em compilações fatiadas. Chegou a vez dos vilões, agrupados por Steven Berkoff, e selecionados, menos pela intensidade de suas vilanias, e mais à serviço de didática niveladora. Cada um deles, retirados das tragédias do autor, é reduzido ao retalhamento de seus atos, expostos em cenas curtas, com pequenas informações sobre suas características. De Ricardo III, resta apenas a deformidade física. De Iago, fica o trânsito em alta velocidade pela trama de ciúme. De Hamlet, procura-se ajustar o conceito do espetáculo à ideia de vileza. De Coriolano, sobra pouco mais que um traço. De Macbeth, evita-se a supersticiosa pronúncia de seu nome. É da natureza dessas seletas que sejam sobrevoados detalhes e anemizadas análises interpretativas. O problema está na forma como se aterrissa na costura temática. Berkoff investiu na pasteurização dos personagens, abordados na dimensão linear de suas atitudes e nos maneirismos de sua facilitação. O invólucro, além do didatismo, circunscreve no humor o alcance de sua ambição, em visível contradição ao anúncio do título. A tradução e adaptação de Geraldo Carneiro levam mais adiante a inclinação para o humor, referendando a impressão de assistir a uma shakesperian stand-up. Marcelo Serrado não deixa dúvidas para que lado se volta. O diretor Sérgio Módena conduz o ator pela trilha da comunicação direta, explorando atuação mais solta e sem impostações, que parecem se ajustar ao temperamento do intérprete. Nos 70 minutos do monólogo, o diretor mantém o tom de conversa, sem ênfases, com a plateia, com exceção do final, em que desmente o intimismo em explosão de luzes e som. No diálogo com os espectadores, Marcelo Serrado está à vontade em citar personagens e gêneros que já viveu e buscar a adesão com recurso à espontaneidade. Mas ao expor os vilões, torna indistinta a sua realização interpretativa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (8/2/2017)

Crítica/ “O pão e a pedra”
Um círculo sindical em torno de uma mãe coragem


“O pão e a pedra” é mais uma afirmação cênica da estética brecthiana e ideologia política que identificam e impulsionam a trajetória do grupo paulista Companhia do Latão. O teatro é para a companhia, desde a sua fundação em 1996, um ato intervencionista em realidade dividida em classes, praticado como ação dialética, e diante do qual a dramaturgia assume função de exemplificar e mobilizar. É sob este enquadramento que o diretor Sergio de Carvalho estabelece, fiel aos princípios do coletivo, as bases político-dramáticas para se debruçar sobre a greve do ABC paulista, em 1979. O movimento, que paralisou as montadoras de automóveis, na vigência da ditadura militar, reuniu as várias correntes do sindicalismo, com adesão de ala da Igreja e de estudantes, está no palco em paralelo a exposição da vida de operária, uma mãe coragem. As discussões sobre a linha de atuação ao longo da greve são acompanhadas por essa personagem feminina que se torna uma contradição modelar entre a necessidade do pão e a força da pedra. Os planos narrativos se interpõem em quadros sequenciais, que se desdobram para explicitar papéis políticos e individualizar consequências. Ao longo de 2h50, com intervalo de 15 minutos, a montagem patina na superfície das transformações a que a mulher se submete diante do pretendido didatismo do cenário grevista. O fluxo entre questões sindicais e reação pessoal emperra no detalhamento excessivo de uma, e no acento melodramático de outra. A síntese se perde nas intenções prolixas e se pulveriza na necessidade de evidenciar a conclusão: “a luta continua”. A arena circense da cenografia de Cassio Brasil determina a circularidade da ação e a música de Lincoln Antonio, com direito a notas da Internacional Comunista, comenta o desenvolvimento dos debates. Do elenco – Beatriz Bittencourt, Beto Matos, Érika Rocha, João Filho, Rogério Bandeira, Sol Faganello e Thiago França, todos vivamente identificados com a proposta do espetáculo – Helena Albergaria e Ney Piacentini têm interpretações mais amadurecidas. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (5/2/2017)

Crítica/ “60! Década de arromba. Doc. Musical”
Féerie a serviço do grand finale 

Não há um formato único que defina as características de “60! Década de arromba. Doc. musical”. A começar pelas informações do título. Ao documentário, show, revista, musical temático, acrescenta-se ainda a participação de Wanderléa, que recebe o tratamento de estrela homenageada. E a indefinição se estende à fartura de quadros, multiplicação de figurinos, volume de canções e viralização de coreografias, em corrida pela espetacularidade, exibida como um gênero quase autônomo. O objeto da cena é a sua própria exaltação em busca de manter brilho efusivo em imagens apoteóticas. A dupla Frederico Reder e Marcos Nauer, que assina essa sequência cronológica de um estilo musical, persegue em dois atos, três horas e centena de composições a feérie até o grand finale, como se cada número tivesse que cintilar ao ritmo de apelos sensoriais contínuos. Até mesmo o videografismo de Thiago Stauffer/Studio Prime é conduzido pela superexposição dos acontecimentos e as curiosidades que informam sobre os arrombos da década. Tudo se transforma em efeitos para que o espectador seja estimulado pela história (do início do rádio aos anos 1950) e lembranças (o ambiente dos anos 1960). Não há texto, apenas os das projeções, com as músicas ocupando seu lugar em sequência narrativa. Os fatos vistos no telão, muito deles amargos, contrastam com a leveza do repertório da Jovem Guarda. “Splish, splash” pode ser ouvida logo depois de imagens da construção do Muro de Berlim, e o Brasil de 1964 ilustrado por “Exército do surf”. Com esse jogo de oposições, os autores criam comentários sobre o período, mas retomam, rapidamente, às ingenuidades do “Biquíni de bolinha amarelinha”, devolvendo ao palco as figuras dos bonecos Ken e Barbie. Tantas e tão prolíferas cenas não permitem que sejam percebidas, senão de passagem, as três centenas de figurinos de Bruno Perlatto. As roupas são exuberantes e, algumas vezes, costuradas no humor. A iluminação de Daniela Sanchez equilibra a tonalidade espetacular de show com os filtros azulados de números românticos. Victor Maia desenha unidade coreográfica com diversidade de movimentos. Natália Lana extrapola do palco para estender a cenografia, com objetos garimpados na década musicada, pelas laterais da plateia. O diretor musical Tony Lucchesi lidera com segurança os competentes instrumentistas. O elenco de 23 atores-cantores-bailarinos compõe o eficiente coro-protagonista em que Wanderléa é  presença reverenciada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (1/2/2017)

Crítica/ “Love, love, love”
Os afetos vividos no seio familiar

A palavra repetida no título da peça do inglês Mike Bartlett assume na tríplice reiteração o sentido inverso da sua etimologia. O amor de que fala surge dos conflitos e das rejeições familiares. Das promessas de transformações políticas e sociais quebradas por mentiras cínicas. Dos projetos individuais desmentidos por atitudes egoístas. Da passagem do tempo vivida como imobilidade irônica. Jovens se encontram na noite de 1967 quando os Beatles  cantam “All you need is love” na primeira transmissão ao vivo de TV via satélite, e se lançam em viagens escapistas em busca de si mesmos. Vinte anos depois, como casal emergente e disfuncional, se concentra nas carreiras bem sucedidas, desprezando os filhos. Na década de 2010, com a dupla já separada, se completa o esfacelamento desse microcosmo doméstico. O mundo que corre paralelo a essa célula adoecida é feito dos mesmos males dos discursos de primeiros-ministros e dos enganadores pactos de bem-estar social. No cenário de uma Inglaterra do pós-colonialismo ao liberalismo globalizado, transcorre esse drama em três atos e movimento único de realismo fotográfico. Bartlett concentra, na fricção entre os membros dessa família e o ambiente em que se desfaz, a narrativa  psicológica, contrastada por historicidade comparada. A evolução lenta da ação estabelece, com esse contraponto político-social, diálogo pouco fluente e um tanto superficial, pelo menos para plateias de fora dos limites da ilha britânica. Eric Lenate imprime relativa “latinidade” ao drama realista psicológico à inglesa com variações na temperatura das contendas. Não que tenha abandonado o caráter geograficamente “british” do figurino de Fabio Namatame e nas mutações do sofá que ocupa o cento do palco no desenho cenográfico de André Cortez. Mas há um calor, em grau rodriguiano, que intensifica as atuações do elenco e acelera a trama discursiva. Até Caetano Veloso é incluído na trilha de L.P. Daniel. Quando distendido do seu eixo central, o texto original na versão de Eric Menate, traduzido por Maria Angela Fontes Frederico, ganha fôlego a mais pela integração do quinteto de atores à alternância das idades e de comportamentos dos personagens. Mateus Monteiro expõe com postura corporal e contenção a timidez e insegurança do conservador Henry. Ary França recorre, de modo um tanto desajeitado, ao seu registro de comediante para dar veracidade ao pai. Rafael Primot adota um ar entre o deboche e a inconsequência para se vestir do jovem dos anos 1960. Nem mesmo a dispensável peruca prejudica o ator. Como o filho adolescente e na fase adulta, o ator  demonstra seus bons recursos para dar a mesma identidade à sua perturbação ao longo do tempo. Debora Falabella percorre os três arcos interpretativos (da garota libertária às adolescente e mulher sufocadas pela família) em composições bem estruturadas e com emoção dosada. Yara de Novaes propõe, em contornos definidos por sensibilidade e racionalidade interpretativas, uma impecável mãe rejeitadora.                

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Temporada 2017

Crítica do Segundo Caderno de O Globo (27/1/ 2017)

Crítica/ “O topo da montanha"

Conexão de atos humanos com desígnos divinos

Há uma originalidade indisfarçável no texto da americana Katori Hall sobre o último dia de vida de Martin Luther King, líder pelos direitos dos negros na década de 1960 nos Estados Unidos segregacionista. A ambientação é realista e as circunstâncias, factuais. O cenário do desfecho é real e o discurso, provocador de ação política. A trama converge do humor encoberto por pistas enganadoras ao fantástico de situações ilusionistas. Desses variados impulsos dramáticos, emerge o personagem humanizado por hesitações existenciais,  pela dependência do cigarro e a constatação do chulé, e ainda pelas contradições entre a religiosidade e ativismo. O Martin Luther King de “O topo da montanha” se mostra, tanto como o homem diante da sua própria condição, como o político na iminência de interromper a sua escalada libertária. Na noite anterior à sua morte, em abril de 1968, o pastor, hospedado em hotel de Memphis, aguarda a chegada de um auxiliar que foi à rua comprar cigarros. Enquanto espera, pede à copa, um café, trazido por uma camareira atraente e falante. É o ponto inicial da longa noite morte adentro, na qual papéis sociais se invertem, hierarquias místicas se impõem e divindades têm sexo e etnia trocados. A conversa se desdobra entre seduções mútuas e um clima de estranheza que se estabelece num plano de convivência que não parece convencional. Até que com um truque de teatro e fala vigorosa (trecho do pensamento de Malcolm X, outro líder negro assassinado) revela a verdadeira identidade da camareira. O eixo da trama é deslocado para a conexão dos atos humanos com desígnios divinos. Discute-se, a partir desse reviravolta, o anúncio da morte e as consequências individuais e coletivas da sua inevitabilidade. O homem deseja a extensão da sua vida, e o ativista, a continuidade da batalha ainda longe da conquista. A quem deixar o legado e como manter pulsante a batalha? A autora conclui o que parece estar no centro de sua dramaturgia: levar adiante um pensamento interrompido pela intolerância ativa ainda hoje. A escrita, com seu realismo disfuncional, adquire tonalidades narrativas nos apelos à mobilização e na exposição de um pensamento. Na montagem de Lázaro Ramos e  na codireção de Fernando Philbert ficam evidentes os diversos climas dramáticos do texto, sem que quaisquer deles, predomine. Os diretores não caíram na armadilha de ressaltar o humor e o fantástico, sugerindo mais o aspecto alegórico de interlocução absurda que, de outra maneira, se confundiria com  conversa excêntrica. No caminho até ao delírio do impossível, a dupla soube criar, a partir de universo concreto, mundo de singularidades, que convergem para a explosão de imagens de fatos e personalidades históricos. A cenografia de André Cortez situa, em detalhes, o quarto de hotel para ampliá-lo na cena final e transformá-lo em base para as projeções do fundo. A sequência ágil e expressiva de fotos e vídeos da tela-painel tem assinatura de Rico e Renato Vilarouca. A participativa trilha sonora original é de Wladimir Pinheiro e a iluminação oportuna de Valmyr Ferreira. Os atores estão em sintonia fina com a mobilidade climática das estações dramáticas do texto. Oscilam dos ares do humor ao calor da emoção, acompanhando os pendulares ventos narrativos. Taís Araujo está mais identificada com as características do humor que envolve a surpreendente e misteriosa argumentação da camareira. A atriz mantém, no mesmo registro, com pequena modulação, a trajetória da personagem. Lázaro Ramos oferece à humanidade de Luther King a emoção do ativista político.