![]() |
Proposta "animal" de ruptura |
Pela quarta
vez, a cidade de Santos é ocupada pelo festival Mirada que, bienalmente,
reúne produção teatral latino-americana, ibérica e brasileira com a curadoria
do Sesc São Paulo, atenta à diversidade de propostas que surgem nessa
latitudes. Este ano, a Espanha é o país referência com destaque para o polêmico
encenador argentino, radicado em Madrid, Rodrigo García, que projeta cena de
contestação formal ao consumismo e a dogmas religiosos, e que em “4”, visto
nesta edição do Mirada, até calçou sapatos em galinhas. Da Espanha também veio
“Please continue, Hamlet”, que coloca o personagem título no banco dos réus
para ser julgado pela plateia, e que já foi apresentado no Rio no festival
carioca Tempo. E ainda “Brickman Brando Bubble Boom – BBB”, mistura de
vídeo-arte e brinquedos adolescentes. Da Bolívia, pôde ser visto o interessante
monólogo “Hejarei – Imortales”, um mergulho na contraditória realidade do país.
Do Brasil, pelo menos duas estreias – “A tragédia Latino-Americana e a Comédia
Latino-Americana. Segunda parte,” do diretor Felipe Hirsch e “Leite Derramado”,
adaptação teatral de Roberto Alvim para o romance de Chico Buarque de Holanda.
Desde a impactante apresentação de “Puzzle” na Feira do Livro de Frankfurt, em
2013, que Felipe Hirsh desdobra a série de textos, literários poéticos,
políticos e paródicos, em espetáculos de sofisticação visual (sempre com
cenografia intervencionista de Daniela Thomas) e provocativos estímulos (a
palavra se faz audível em atos que as desdobram em discursos políticos). “A
comédia latino-americana” é a sexta montagem nesta linha, que ainda está em
processo de criação, e cuja estreia está prevista para outubro em São Paulo.
Mesmo com partes inconclusas, é possível determinar que a estrutura básica
desta seriação de textos englobados em temas definidos por construção de
quebra-cabeças, permanece sólida como proposição. Nesta atual comédia, em
sequência à anterior tragédia, as classificações se misturam num mesmo
caldeirão fervente da geografia sócio-literária continental. Na primeira parte,
autores de protesto emprestam suas palavras de “agit-prop” à economia, como o
uruguaio Leo Masliah em “Neoliberalismo”, embaladas por toada política e música
da ótima banda com sonoridade de cabaré berlinense dos anos 1930. De Reinaldo
Moraes é a parodia da carta de Pero Vaz de Caminha, atualizada e revista pelo
distanciamento do tempo e a permanência das mazelas fundadoras da nacionalidade.
Poemas em espanhol, canção que ressoa subserviências, cortina sobre
as reações de confronto com a plateia, se sucedem como desdobramentos da
admiração seletiva de Hirsh pelos fragmentos textuais. Na segunda parte,
somente essa admiração explica a escolha de “Experimento sobre a liberdade
total”, do argentino Pablo Katchadjian, que ainda em estágio de ensaio (os
atores se movimentam com os textos nas mãos), não pode ainda ser avaliado em
sua totalidade na sua aclimatização cênica. Mas já é perceptível o seu caráter
mais literário do que teatral, e avaliar que seus diálogos irônicos e tautológicos,
se avolumam em palavras, que se tornam soltas e repetitivas e têm dificuldade
em encontrar seu sentido maior na recepção já cansada e inevitavelmente perdida
dos espectadores desse experimento inflado de influência tardia de Samuel
Beckett.
![]() |
Imprecações diante do muro de protesto (foto: Patricia Cividanes) |