A proliferação de monólogos nas últimas temporadas se explica por causas tão variadas como economia de produção, vacuidade dramatúrgica, e necessidade de exposição. Quais sejam as razões, as possibilidades de exploração do gênero não se restringem aos aspectos restritos da forma e fracionados da comunicação. No passado, confundia-se com “tour de force” dos atores, mas ao longo do tempo, ampliou seu alcance, com intérpretes de repertório técnico mais depurado, ajustando o estilo a meios expressivos sintonizados com a atualidade teatral. Os diretores Felipe Hirsch (“Peça Infantil/A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”) e Rodrigo Portella (“Tip/ Antes que me queimem eu mesmo me atiro no fogo”) individualizam suas estéticas em monólogos com Chay Sued e Milla Fernandez. Monólogos estão fora de questão: convencionais ou provocantes, a depender apenas do modo de fazer e de usar
| Chay Suede: “Peça Infantil” |
Independente de que seja monólogo, textos de músicos, experiência com “graphic novel”, Felipe Hirsch mantém coerência com visão muito própria de encenação. Fiel a propulsão dramatúrgica única, em que movimentos cênicos se desdobram de modo performático nas atuações, e “conceituais” na narrativa, confronta modos e meios que se unificam pelos contrários. “Peça Infantil” não é um espetáculo para crianças, mas também não é lúdico como partilha de um jogo aberto de comunicabilidade. Insinua-se com aparência biográfica para expor o patético, cruel, violento, risível de vida real. Remaneja a imagem midiática do ator ao propor rico universo verbal da fala. Distorce intenções, mascarando antagonismos de estilo: (“O poeta na infância imita; o poeta adulto rouba.”/ T.S. Eliot)/ (“Não confunda a obra do mestre Picaço com a pica de aço do mestre de obra.”/ Roobertchay). A desconfiança do espectador é estimulada pelos títulos das doze cenas nas “informações” das imagens. No texto de referências eruditas - Caetano W. Galindo e de Hirsch - há alusões à escrita “machadiana” e a traços levemente irônicos e satíricos. É nesse entremez de comicidade encapada que o ator Chay Suede domina a complexidade da linguagem, em vigilante distância de qualquer envolvimento para além da proposta narrativa. Suede diz com segurança o que solitária atuação o exige, congelando emoções. A força da palavra é absoluta no Cavalheiro infantilizado de fingida saga de acontecimentos nada heroicos, e quem se “recria a si mesmo”.
Não é o primeiro monólogo, outros estão no currículo de Rodrigo Portella, em paralelo a adaptações literárias e dramaturgias importadas que compõem seu trajeto bem delineado no teatro. “Tip” parece ter sido rumo desviante: construção modesta e alcance doméstico. O texto da atriz Milla Fernandez evidencia a experiência de “sexo virtual” durante a pandemia. Pelo menos é o que se propaga por entre conflitos familiares e desafios de sobrevivência profissional. Esse “detalhe” vivencial, adquire postiça centralidade, que em inserção sem ajuste, nada mais é do que apelo à curiosidade. A reduzida e mal instalada cenografia (dois tapetes vermelhos, aludindo a conquista do sucesso) enquadra Fernandez nos percalços de se fazer atriz, e na performance explícita de atender às ilusões do sexo monetarizado das redes. A montagem parece, tão somente, levar o espectador a ocupar lugar de “voyeur”.