Ano de Penumbra Teatral
Com o mesmo determinismo da passagem do tempo, as
retrospectivas-resenhas de final de ano apontam para o registro como forma de
manter presente o que se faz passado. O teatro, pela efemeridade da sua
existência, é fugaz na dificuldade de ser reproduzir para além do próprio
momento em que se realiza, revivendo pelos lastros que deixa na sensibilidade
do momento, nas emoções do instante e na longevidade do pensamento. A
retrospectiva da temporada teatral é a tentativa de reter o fluxo da cena na sequência
do exercício da análise. A avaliação de 2019 reproduziu, em escala mais
acentuada, o que já era visível no panorama dos últimos tempos. Em paralelo ao
processo de enxugamento de ideias que justificassem, minimamente, o que se viu
nos palcos, diminuíram, decisivamente, os meios produtivos, aos quais se juntou
um apagamento técnico-dramatúrgico-cenico. Em quadro de voluntarismo anônimo, vozes
solitárias sem reverberação e sonoridades desgastadas, restaram espasmos
criativos, seja em algum traço cenográfico inventivo, solitário texto mais
interveniente, ou pretendida encenação menos acomodada. Foram muitas as
estreias, raras as notáveis. A quantidade, alta numericamente, mal escondeu as
precariedades de produção e camuflou a impessoalidade das fichas técnicas, incapaz
de compensar a aridez do panorama com, mesmo que incerto, sopro de vitalidade. Poucas,
mas com força reativa, algumas estreias ocuparam o espaço esgarçado por tanta
insignificância. Quase que por contraste, o diretor Felipe Hirsch ao repetir a
fórmula que o acompanha há anos em “Antes que a definitiva noite se espalhe em
latinoamerica”, deixou entrever o domínio dos meios que asseguram assinatura
indelével às suas encenações. Se acrescentarmos a ruidosa performance cética-demolidora
de “Fim” ao musical pop de David Bowie, Lazarus (as duas montagens foram vistas
apenas em São Paulo) e a ópera l “Orphèe”, tem-se a medida desta identidade
criativa. Em outra ponta de espetáculos grifados, “Estado de Sítio”, com a marca
de Gabriel Villela, esteve no Rio em curta temporada. A versão para o texto de Albert Camus explode em imagens do imaginário
alegórico-poético da estética consolidada de Villela. Também com fortes referências
visuais, o simbolismo de Maeterlinck (autor belga do século 19) ganhou com a
pesquisa de bonecos e máscaras, de Fabiana de Mello e Souza, exposição singularmente
emoldurada. “Interior” mostrou-se sensível à construção fabular e poética do original.
Em expressão atualizada, o realismo de “As Crianças” recebeu do diretor Rodrigo
Portella tratamento que recicla a progressão da narrativa e quebras na ação,
com pausas e silêncios que encontram renovada pulsação dramática. Na mesma
linhagem realista, o drama musical “O Som e a Síaba”, de Miguel Falabella, reveste o tradicionalismo de firme
escrita e boa técnica vocal (as atrizes Mirna Rubin e Alessandra Maestrini). A
proliferação de monólogos, burocráticos, exibicionistas, empobrecidos, foi
quebrada por exceções: provocante, evocativa, atual.
Em “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, Leonardo Netto, autor e ator, radiografa reações homofóbicas em tempos e geografias diversas. Refração contundente de tragédia sofrida por Jéssika Menkel, “Cálculo Ilógico” se traduz no palco sem autopiedade ou emotividade ilustrativa. Com rigor e emoção na medida, a autora e atriz descreve pulsões interiores em sincero depoimento sobre o inexplicável. “Sísifo”, colagem de 60 cenas em que Gregório Duvivier transfere o mito para os impasses sócio-políticos-existenciais de agora, s políticos, com alusões críticas ao eterno sobe-e-desce desse nosso insano mundo.
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"3 Maneiras de Tratar do Assunto": voz de confronto |
Em “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, Leonardo Netto, autor e ator, radiografa reações homofóbicas em tempos e geografias diversas. Refração contundente de tragédia sofrida por Jéssika Menkel, “Cálculo Ilógico” se traduz no palco sem autopiedade ou emotividade ilustrativa. Com rigor e emoção na medida, a autora e atriz descreve pulsões interiores em sincero depoimento sobre o inexplicável. “Sísifo”, colagem de 60 cenas em que Gregório Duvivier transfere o mito para os impasses sócio-políticos-existenciais de agora, s políticos, com alusões críticas ao eterno sobe-e-desce desse nosso insano mundo.