segunda-feira, 22 de agosto de 2011

32ª Semana da Temporada 2011


Duas Montagens em Final de Temporada


Crítica/ Trabalhos  de Amores Quase Perdidos
Triangulação entre amor e acaso
É como um rito de passagem, etário e autoral, para Pedro Brício. Ao escrever sobre “o amor e o acaso”, em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto, transpõe o limite imaginário para o ingresso na idade adulta, quando as escolhas se fazem mais consequentes e os afetos menos circunstanciais. E a apoiá-lo nesta travessia, a desestrutura da narrativa, personificada como meio expressivo geracional. Três amigos, que misturam desejos e certezas, vivendo impulsos amorosos, se descobrem, sem que saibam de onde vem o baque, desarmados de suas vontades e lançados em incertezas. De repente, nada é mais o mesmo. O tempo nos muda, a memória é realidade dolorida, os sentimentos se resumem a perdas, e o futuro, uma projeção, levemente idealizada, de ganhos desconhecidos. Nessa tessitura de emoções, uma narradora participa dos volteios de aproximações e afastamentos. Pedro Brício demonstra carinho pelos personagens, como se fossem fragmentos compilados de manual de sensações vividas por quem está diante do esgotamento do fim das primeiras duas décadas de suas vidas. Na transposição para o palco, o diretor Pedro Brício manuseia a sua dramaturgia com igual habilidade com que armou a sua escrita. Deixa visível o rascunho do texto, como se os  quadros se estruturassem à frente da platéia, orquestrando-se como ensaio geral. Esse efeito desconstrutivo, vai se desenhando ao longo da encenação, amoldado o ritmo da ação interior. No quarteto de atores, integrados à proposta do autor-diretor, as atrizes – Lucia Bronstein e Branca Messina – se destacam um tanto mais do que os atores – João Velho e Pedro Henrique Monteiro.        


Crítica/ Novecentos
Viagem em direção a destino imutável 
Ao personagem de Novecentos foi-lhe atribuído este estranho nome, o mesmo do título da montagem em cartaz no Misdrash Centro Cultural, no Leblon, assim como estranha foi a permanência, toda sua vida, num transatlântico. De lá, onde nunca saiu, era destacado pianista. Estabeleceu na mobilidade das viagens sucessivas, a imobilidade de manter a decisão de jamais descer à terra. O que criou para si, naúfrago de nascimento, abandonado, não se sabem por quem, e depositado sobre o piano do salão de festas, foi o solitário da humanidade passageira. O intocado pelo mundo exterior, sobrevivente definido pelo seu nascedouro. A história desta figura circunscrita à sua própria geografia física e emocional, se transforma em monólogo assinado pelo italiano Alessandro Baricco, que o diretor argentino Victor Garcia Peralta trata em tom intimista, exigido pelo formato e pela proximidade da platéia com o ator. A sala do Midrash dispõe de apenas 50 lugares. A luz de Maneco Quinderé é acessório importante na dramática do espetáculo, muito simples e despojado, com o ator no centro da cena. Isio Ghhelman, que se distribui entre o papel do “naúfrago” e do trompetista, interpreta com sutis mudanças de tom a quase fantástica fábula de um homem em constante viagem em direção a destino imutável.   


O Que Há (de melhor) Para Ver
Chico Diaz: atuação límpida e inteligente
A Lua vem da Ásia -  A ficção de Campos Carvalho é um modo de recriar universo atropelado por inconclusões e por visão um tanto niilista da existência. O diretor Moacir Chaves empresta ao monólogo um caráter múltiplo, conduzindo os espectadores pela jornada de alguém percorrendo dúvidas. Com o vigor do peito aberto e o patético de um vagabundo que evoca Beckett, Chico Diaz transmite com ironia e sensibilidade o “sentimento do mundo” construído por Campos de Carvalho, numa atuação límpida e inteligente. Teatro Sesi.

R&J  de Shakespeare – Juventude Interrompida – O texto bem urdido, que transfere a representação da tragédia de Romeu e Julieta para um grupo de alunos de um colégio britânico, ganha ritmo intenso pela habilidade do diretor João Fonseca em estabelecer alta voltagem cênica, em que comédia e drama se equilibram. Outro trunfo é o quarteto de atores, que mantém a platéia presa às suas atuações, em especial Rodrigo Pandolfo, um jovem já com domínio de seus meios interpretativos.Teatro do Leblon.
  
Um Violinista No Telhado - Baseado na cultura judaica, fixada no microcosmo de uma aldeia russa, no início do século XX, o musical ganha versão com igual rigor de realização que Charles Möeller e Cláudio Botelho têm mantido nas suas montagens. Com a mesma capacidade de selecionar os elencos, dos protagonistas às crianças, a dupla acerta, uma vez mais, no harmonioso e eficiente coletivo de atores, cantores e bailarinos, e na ótima direção musical e na orquestra. Oi Casa Grande


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